Contos de anayr: O Deserto foi o meu primeiro E-book publicado via KDP na Amazon, foi um enorme fracasso, eu não investi em marketing de tipo algum, e quando tentei eu mal sabia como fazer para levar esse livro até quem iria querer ler. Terminei caindo nas mãos de leitoras de romances Hot e elas massacraram ele em postagens no Instagram, isso em 2018.
Em 2021 eu resolvi republicar ele, com uma revisão e capa, mas nada nesses contos me agradava da mesma forma como quando foram escritos. São ao todo 3 contos que juntos narram uma história que considerei interessante.
Esse universo que criei, chamado de “Anayr” (não lembro se havia algum motivo para se chamar assim, talvez seja só a primeira palavra que veio na minha mente na época) é vasto, ao todo escrevi mais contos nele do que consigo lembrar, e só esses três foram vistos por alguém, além de um ou outro micro conto nas redes sociais.
Dessa vez, fiz algo “drástico”, removi o e-book das lojas e vou postar ele em três partes aqui, no Substack. A depender da recepção, penso no que fazer a seguir com tudo o que foi criado para esse mundo fantástico. Então, se gostarem, comentem, se virem algum aspecto que chamou a sua atenção, comentem, se odiarem, comentem, e se por algum motivo vocês pensarem “quero mais disso”, pelo amor de qualquer entidade divina viva ou morta, comentem.
Boa leitura.

Eu me Entrego
Em Anayr havia um deserto, e poucos gostavam disso. Não era um deserto como os de gelo no extremo Norte, próximo a Belian, a floresta gélida, mas também não era um deserto como as planícies que rodeavam Lúria, a floresta luminosa, era um diferente, de dunas e grande rochas, separadas por horas de caminhada, cada uma com uma aparência tão morta quanto a paisagem local. O mar de areia cortava o continente ao meio, e nunca havia sido explorado por completo. Era triste andar por ali, mas um homem, um pobre e infeliz homem, andou por ali em dias ruins.
Valir, esse era o nome de um soldado do exército de Lyane, o grande reino dos humanos, que ficava distante do deserto. Foi em um dia estranho e com uma grande tempestade de areia que, ao parar em uma planície gramada, não muito distante do deserto, o esquadrão de exploração se desfez. Muitos soldados se perderam da própria rota que seguiam, Valir foi um deles. Tudo o que viu após a violenta tempestade foram dunas ao seu redor, por quilômetros, aos seus pés estava um pedaço da planície, que fora arrancado e arrastado até ali. Quase impossível de se acreditar. Após caminhar por horas pelas dunas, não encontrou ninguém, estava perdido.
Andar pelo deserto causava-lhe muitas tonturas, o sol era escaldante, sua água estava no fim, o alimento era escasso e, por não haver árvores, nem mesmo o prazer de uma sombra sobre sua cabeça ele tinha. Ali tudo era difícil. Ao se preparar para servir Lyane, Valir não havia sido treinado para aquela situação, era difícil acreditar que um dia se encontraria em um deserto, ainda mais sozinho. Definitivamente aquele era seu pior pesadelo tornando-se realidade.
Foi quando finalmente encontrou uma árvore, gigantesca e de aparência morta, que resolveu parar e pensar no que fazer a seguir. A estratégia de andar em uma só direção não estava funcionando. Não funcionaria nunca se a direção fosse a errada. Ali ele teria um pouco de sombra, poderia calcular melhor suas ações sem se preocupar com o sol queimando sua pele.
Retirar a própria vestimenta militar foi a primeira reação, o calor estava cozinhando-o dentro daquela cota de malha, o elmo, as grevas e as manoplas eram como panelas e ele era a carne. Estava usando por baixo apenas roupas leves de um tecido comum da região onde vivia. Talvez se andasse vestido assim, sem todo o aparato militar, conseguisse ser mais rápido, precisaria apenas de sua espada para se proteger.
O soldado passou as mãos pelos cabelos ralos e escuros, bebeu um pouco da água que restava e sentou-se encostado na árvore para aproveitar sua sombra. Era pouco depois do meio-dia, julgou pela posição do sol. Ele precisava chegar a algum lugar conhecido antes do anoitecer ou enlouqueceria antes mesmo de achar água ou comida.
Enquanto descansava as pernas, Valir observou algo estranho, próximo a uma duna, estava a poucos metros de distância, era como se o vento estivesse concentrado em afastar um pouco de areia de um único ponto. Levantou, andou um pouco naquela direção, quando percebeu que sem grevas ele não conseguiria andar nas areias escaldantes. Voltou para calçar as proteções para os pés, quando as calçava viu dali mesmo o que acontecia com aquele ponto específico da duna. A areia continuava voando para longe, era como uma pequena tempestade de areia se formando, no entanto, elas não começavam assim, não é? Ele não sabia.
Agora protegido, resolveu andar até aquela duna, com a espada em punho ele se aproximou devagar. Suas pernas tremiam, suava frio mesmo em um ambiente de calor extremo, o frio na barriga era a pior sensação, a espada não parecia nada firme em sua mão. Era assim a vida de um soldado de Lyane? Sempre enfrentando o desconhecido? Ele não queria isso para a vida toda, definitivamente não queria, tudo o que ele mais queria agora era paz, e claro, uma boa refeição.
Era grotesco o que começava a sair da areia, primeiro havia sido como uma lança, porém grossa, afiada na ponta, coberta de uma gosma verde, tinha pelo menos o tamanho de uma perna humana, até se dobrar e tentar se apoiar na areia, fazendo força para sair debaixo da duna. Para Valir, aquilo era uma pata, uma pata de um ser que ele não queria conhecer, sem dúvidas. No horror do momento ele largou a espada e correu de volta para a sombra que o aguardava metros atrás. Precisava se esconder por trás da árvore e ver o que surgiria ali, em segurança.
Mas quase nada na vida de Valir era simples, na verdade nada na vida de Valir havia sido fácil. Ele tropeçou nas grevas ao correr na areia, e ao olhar para trás viu mais daquelas “patas” saírem do mesmo ponto na areia, eram pelo menos seis quando ele conseguiu se levantar. Andou com dificuldade até a sombra, sempre com respiração ofegante, o frio na barriga e os olhos arregalados, seus braços não paravam quietos, como se aquilo pudesse acelerar seu movimento.
Ao estar em “segurança” atrás da árvore, Valir olhou para o que agora estava completamente fora da areia. A criatura tinha pelo menos dois metros de altura, seis pernas longas e curvadas que a apoiavam no chão, a parte inferior estava presa a um tronco que podia girar rapidamente em muitas direções, tinha uma traseira robusta e no tronco tinha duas patas que pareciam garras, possivelmente capazes de rasgar ou quebrar qualquer coisa. A cabeça era como a de uma simples formiga, mas seus olhos eram mais vivos. Sem dúvidas, aquele era um ser consciente e inteligente e poderia rivalizar com um humano facilmente. Valir, em momento algum achou que o diálogo fosse possível, de onde estava só conseguia pensar em uma única coisa. Fugir.
Ele observou a criatura andar e se mover pelas areias próximas, sem objetivo, sem rumo, sem sentido. Era como um inseto que acabara de nascer e estava conhecendo o ambiente. Sua pele era como uma casca bruta, um exoesqueleto deformado. Demorou até que Valir reagisse de acordo, a fome, a sede e o medo o paralisavam. Ele pensou em ir até sua espada, e lutar contra o monstro, talvez a carne por baixo do exoesqueleto da criatura pudesse saciá-lo, mas só em pensar em se arriscar já era aterrorizante.
Foi nesse momento de terror que Valir se ajoelhou aos pés da árvore e lembrou por um momento das histórias sobre o passado de Anayr. Um mundo coberto por uma floresta sagrada, repleta de deuses, deuses que habitavam árvores, os Venar. Ali havia uma árvore. Sagrada ou não, era a única em todo o deserto. Haveria também um Venar ali? Ele orou, pediu ao possível Venar que, em sua mente, guardava o deserto, expulsasse dali os perigos mais obscuros, para que ele pudesse chegar em casa seguro, pediu também que um caminho lhe fosse revelado.
Enquanto Valir orava em silêncio, de cabeça baixa, com as mãos na árvore e os joelhos na areia, os seus arredores tremeram. De todas as dunas saíram as mesmas patas que antes deram início ao surgir da criatura que por ali estava. De olhos abertos e coração acelerado ele cessou a oração, pôs-se de pé e procurou uma rota por onde pudesse fugir sem ser pego, mas o medo era grande demais, Valir não conseguiu raciocinar tão rápido quanto quis. Ele já havia tropeçado antes e não sabia a que velocidade aquela criatura poderia se mover. Sem conseguir pensar em como agir, olhou para o céu e continuou sua oração.
As criaturas emergiram e rapidamente cercaram a árvore, sentiu dentro de si algo ruim, era como se seu sangue estivesse virando água fervente e escorrendo pelos seus olhos, não havia mais esperança, sentia, estava morto. Fechou os olhos e continuou seu cântico de adoração aos Venar, agora em voz alta, gaguejava, chorava, gritava. Enquanto isso, as criaturas se aproximavam. As seis patas grossas e nojentas não faziam barulho na areia, então, ele só escutava o bater das mandíbulas como se fosse uma forma de comunicação entre elas, se aproximaram devagar, como se estivessem coordenadas. Após perceber que realmente o Venar tinha o abandonado, Valir parou o cântico, parou o choro, sentiu a fome, o cansaço, a dor na cabeça, nas pernas, nos braços, a sede, o medo... e fez o que poucos conseguiriam fazer naquela situação, Valir falou:
“Eu me entrego”
A essa altura os seres já estavam fechados em círculo ao seu redor. Ele levantou a cabeça, olhou para os rostos asquerosos, escutou o estalar das mandíbulas, sentiu um cheiro forte, que lembrava ovo podre, deixou que todo medo se tornasse aceitação. As criaturas estavam paradas ao seu redor, era possível que não fossem ofensivas, era possível que tudo aquilo não passasse de um horror pessoal, talvez fossem até mesmo ajuda, quem sabe seriam elas mesmas manifestações do Venar. Isso! Era o Venar do deserto lhe dando uma resposta. Com esse pensamento, encerrou-se a vida de Valir.
“Sangue, areia e morte”
A voz era grave e arrastada, como um grito de horror de um animal sendo queimado vivo, as criaturas repetiam isso sem parar, em uníssono, enquanto arrancavam os membros de Valir. Sem fazer muito esforço, os seres despedaçaram o corpo do pobre soldado, pouco a pouco devorando sua carne, mordendo seus ossos, jogando para os lados suas vísceras. Nada terminou bem.
ISBN: 978-65-00-15912-7
Eu considero a escrita desse conto uma das minhas piores, mas é sempre bom revisitar o que foi feito quase 10 anos atrás, só assim consigo perceber minha evolução.
A seguir: Renascido das Areias
Até mais exploradores!
Publicada originalmente na Prosa & Pixel, no Substack. Ver no Substack · Assinar a Prosa & Pixel · Todas as edições