Pular para o conteúdo
Prosa & Pixel28 de março de 202519 min de leitura

EDIÇÃO ESPECIAL #3 - Contos de Anayr

Parte Final de Contos de Anayr: O Deserto

Foram 10 dias que se passaram desde a última edição especial, tempo para que vocês lessem as duas primeiras partes desse conto, e tempo para que eu reestruturasse meus planos e pensamentos, que dia após dia parecem se esfarelar e dos farelos nascem novas ideias. Estou cansado de ter novas ideias, e por isso tenho tentado trabalhar com isso aqui… Anayr.

Faz uma semana, mais ou menos que tomei a decisão de voltar a mestrar RPG de mesa e dedicar mais do meu tempo a criação de conteúdo sobre esse hobby que deixei de lado por uns anos, e tem sido bem divertido. Apesar do pouco tempo livre que tenho, jogar RPG me coloca em um universo onde tenho algum controle sobre as coisas, e me trás um conforto enorme não estar 100% preso a essa realidade.

A parte final de Contos de Anayr: O Deserto, trata de um novo povo, uma nova raça e uma nova personagem, a quem chamo de “a cega que tudo vê”. Lembro que, quando escrevi esse conto, na primeira vez, eu estava lendo mitologia grega, e alguma coisa ali me fez ter essas ideias, um misto de misticismo, mar, ilhas e um olho a mais.

Queria entender como os meus pensamentos se embaralham na hora de criar essas coisas, mas creio que seja impossível.

De qualquer forma, boa leitura!


A esperança possui três olhos

Além das planícies e bosques que cercavam Lyane, ficava o grande mar, conhecido como Mar-Lyane, ali era possível se deparar com monstros diversos, tempestades avassaladoras e ilhas inimagináveis, e bem a leste do mar ficava Ilianor. As lendas diziam que Ilianor era a terra do sol, não o sol que iluminava o mundo todo, mas o Sol, o grande Venar solar, deus das revelações, das navegações e pai da raça Numari, aquela que possuía três olhos e cabelos grisalhos.

Ilianor era o nome de um grande arquipélago liderado por um reino de mesmo nome. Lá reinava Kamariel, o príncipe das águas salgadas, conhecido pelo mundo todo por suas façanhas em ilhas distantes e perigosas. Conhecido também por deixar viva a aliança entre os Numari e o povo do continente de Anayr, sendo sua esposa uma mulher comum e não uma Numari.

Longe da grande cidade que servia de capital para os povos de Ilianor, em uma ilha pequena, se comparada as muitas que eram povoadas por ali, ficava uma montanha, e no topo dessa montanha ficava um dos muitos templos ao deus Sol no arquipélago. Ariane guardava aquele templo, era conhecida como “a cega que tudo vê”.

Era uma tarde fria e com muitas nuvens carregadas no céu. As portas do templo sempre estavam abertas, eram de uma madeira velha, mas eram firmes, com seus 15 cm de espessura e grandes runas e símbolos entalhados ao longo dela. As paredes do templo eram de pedras acinzentadas, por dentro era bem diferente do que o que se via por fora, eram cobertas com tapetes escovados e avermelhados, retratando muitos acontecimentos do passado e as intermináveis conquistas do povo Numari, sob a luz do Venar solar. O chão era de uma cerâmica branca que brilhava como se nunca tivessem andado por ali pessoas com os pés calçados. Haviam tochas pelas paredes. No fundo do templo, aos pés de uma estátua de 7 metros do deus Sol, estava Ariane.

A Numari, rodeada de velas e incensos, permanecia de olhos vendados e sentada. A posição de lótus era uma clássica posição de meditação para os sacerdotes do Sol. Ela vestia uma túnica de algodão, tingida de vermelho, tinha mangas longas. Seus cabelos caiam até a cintura, eram grisalhos, na testa um terceiro olho estava aberto, atento.

— Quem é você que se aproxima? — Ela perguntou, sem se mover. Sua voz era serena. Com estrangeiros, os Numari usavam a língua comum, e só falavam sua própria língua com membros de seu povo.

Entrando ali, agora, estava um pequeno homem. Usava uma cota de malha, grevas e manoplas também, sua postura era cansada, assim como sua expressão. Não carregava elmo, nem espada, era somente isso, um homem de vestimenta militar.

— Senhora, — ele se ajoelhou, por cansaço ou respeito? Não se sabia — eu tenho uma mensagem urgente para você. — Após terminar a fala ele respirou fundo, definitivamente estava cansado.

— Diga, que mensagem é tão importante para fazer com que os homens de Lyane cruzem o grande mar em busca de uma Numari cega? — Ela continuava calma, mas falava firme em tudo o que pronunciava, causando assim uma certa intimidação.

— Você é cega dos olhos comuns, mas sabemos das habilidades do terceiro olho de seu povo, você enxerga além dos planos da realidade. — Ele respirou fundo mais uma vez e se pôs de pé, mostrando que estava ajoelhado muito mais por cansaço que respeito, ou quem sabe só por cansaço. — Você é a cega que tudo vê, é a Numari que procuramos.

— Todos os Numari possuem um olho a mais, assim como todos os homens possuem desrespeito para com a natureza. Por que logo eu? — Ela questionou, ainda sem se mexer, somente seu terceiro olho observava toda a cena, ela inspirou um pouco da fumaça perfumada dos incensos e depois expirou devagar.

— Precisamos de alguém que entenda o que vê, e não alguém que somente veja, você é nossa esperança, talvez ainda possamos entender o que é o deserto. — Ele tossiu um pouco, sua garganta estava seca.

— O deserto? — Como se estivesse assustada, mas ainda assim com uma calma imensa, Ariane se pôs de pé, devagar, como o levantar de um gigante.

Ela pensou duas vezes antes de tomar alguma decisão, mas o deserto era algo que despertava a curiosidade de todos os sacerdotes do sol, existiam muitas teorias sobre sua origem e todas envolviam deuses e o mundo além dos olhos comuns. Se ela tinha uma chance de explorar o deserto, ou se os homens conseguiram descobrir algo que não entendiam, ela precisava fazer algo.

— Sim, o deserto.

— Vamos conversar, me leve até seu superior.

E foi assim que os homens conseguiram levar uma cega através do grande mar, para que ela lhes explicasse o que eles estavam vendo, o que estava acontecendo.

Ͽ۞Ͼ

O barulho dos cavalos, e do rodar das rodas da charrete, assustava os pequenos animais do bosque. As pedras no caminho, pouco gramado, não eram obstáculos, a trilha era bem-feita pela unidade militar que estava acampada além das árvores pequenas e por muitas vezes frutíferas. O cheiro da natureza acalmava Ariane a maioria das vezes, mas aquele local não estava marcado por boas vibrações, energias ruins a rodeavam e ela sentia isso como sentiria se a chuva tocasse sua pele. Para sua alegria, o dia era de sol.

Foram 5 dias de viagem pelo mar, em um navio muito bem preparado e guiado por um Numari experiente. Anayr era uma terra de muitas histórias e de muitas espécies, escondia segredos por todos os lados, e sempre surpreendia seu povo, chegar ali não era como chegar em um local de paz, porém também não era como cair em um campo de guerra. Ariane queria manter-se solidária o máximo possível e negar ajuda a um povo necessitado não era um ato de solidariedade. Além disso, era sobre o grande deserto de Anayr que se tratava essa missão, um local estudado por muitos sacerdotes Numari.

A Charrete era simples, toda feita de madeira com pequenos detalhes em metal polido, havia alguns detalhes entalhados por fora, raízes, arvores, folhas, coisas que para Ariane nada mais eram que ironia. Os homens derrubavam árvores para fazerem charretes e entalhavam as plantas na madeira. Dentro, ela estava sentada em um acento macio, estofado. Um homem simples, vestido em uma roupa de tecido leve e com botas de couro, conduzia a charrete.

— O senhor conhece bem a sua terra? — Ela perguntou, falando pela primeira vez após entrar na charrete.

— Sim, sim, conheço muito bem, já viajei por muitos dias, conheci a maioria dos povos que por aqui vivem. Diria até que conheço suas canções — ele sorriu, carismático — trabalho hoje em nome da coroa de Lyane, afinal, um homem precisa alimentar sua família. — Ele falava rápido e sempre atento ao caminho, conduzindo dois cavalos, sem muita pressa, de vez em quando olhando para os lados.

— Entendo, o seu povo fez de você assim, pelo menos ainda mantém a sua energia e vivacidade. É o que importa em dias escuros. — Ela ainda estava vendada, seu terceiro olho causava um pouco de espanto no condutor, mas ele se recusava a ficar encarando.

— Eu poderia cantar uma bela música sobre o passado de Anayr. Você conhece sobre o passado de nossa amada terra? — Ele perguntou, meio que ignorando o comentário anterior de sua passageira.

— Conheço o suficiente, mas, fique à vontade, cante.

E a viagem se seguiu assim por um tempo, somente com as canções do condutor. A primeira canção falou bem dos primeiros dias daquele grande continente. Ele começou cantando versos sobre a grande floresta Venair, a floresta do mundo, falava-se que ela se espalhava por todo o mundo, de Anayr a Ilianor, até as ilhas e continentes mais remotos do mundo. Seguiu o ritmo cantando agora sobre os Venar, os primeiros, únicos e grandiosos deuses que já andaram ou andam pelo mundo, cantou versos sobre suas infinitas formas e seus mais belos aspectos da natureza, sobre os Venar de gelo, fogo e ar. Eram, os Venar, espíritos de energia que manifestavam na terra toda a vontade da natureza, sendo eles mesmos a própria natureza, viva e infinita em beleza e poder.

O terceiro olho de Ariane começava agora a ver as vibrações que cercavam aquela região da floresta, áureas amareladas surgiam até mesmo das plantas, onde os mais frágeis espíritos residiam, o amarelo nas áureas estava sempre associado ao sentimento de medo e isso assustava até mesmo ela. Se a natureza teme o que tem a seguir, por que ela não temeria?

Os cânticos do condutor seguiam sem perder o ritmo, ele não via tão bem quanto a Numari cega. Ele agora cantava um trecho triste da história do mundo, era sobre a ascensão dos homens e a queda dos Venar, quando os homens começaram a derrubar a floresta Venair, em busca de novas terras para suas cidades e vilas. Foi assim que os Venar se excluíram do mundo, se isolando nas pequenas e poucas árvores que ainda existiam em algumas planícies e ilhas, sendo a floresta Venair, próximo a Lyane, a maior de todas as concentrações dessas antigas árvores. Mesmo com o nome de floresta, não passava de um bosque, talvez o mais belo do mundo.

Já era possível ver dali, onde estavam, algumas das primeiras tendas do acampamento militar, os vigias estavam de prontidão para qualquer um que se aproximasse. Os vigias eram os guerreiros que guardavam as entradas de um acampamento militar, tinham arcos e flechas em mãos, na cintura uma espada longa, usavam cota de malha e elmos de crista azulada, era sempre bom ter um vigia a vista, a menos que você estivesse invadindo um acampamento inimigo.

Os cânticos do condutor se encerraram quando a charrete parou, e seus últimos versos deixaram Ariane um tanto pensativa. Ele falara sobre os poucos Venar que ficaram para guardar o mundo, e sobre os muitos que abandonaram a esperança nos homens e se espalharam por Anayr, em busca de árvores da antiga Venair, para fazerem delas o seu lar, e para sempre amaldiçoar os homens, por sua falta de respeito com os deuses e a natureza.

— Alto! — Gritou um dos vigias ao ver a charrete se aproximando, outros dois vigias colocaram as mãos na aljava e já pegaram flechas, armaram o tiro enquanto o que falara se aproximou do veículo agora parado. — De onde vem, e quem transporta? — O vigia perguntou, sua voz era grave e intimidadora.

— Sou condutor oficial de Lyane, venho em nome do general Kullen, quem trago é Ariane, “a cega que tudo vê”, solicitada pelo seu comandante, Zamar. — Ao escutar o condutor falar, Ariane se levantou saindo da Charrete, olhos vendados, o terceiro olho aberto, vestia agora uma túnica azul de mangas longas, chegava até pouco abaixo dos joelhos, as bordas eram em crochê de linha branca. Seus longos cabelos grisalhos caiam pelos ombros até pouco acima da cintura.

— Me acompanhe, reverendíssima. — O vigia falou, fazendo gesto para que seus companheiros, longe, baixassem o arco e flecha. Depois que tocou a mão de Ariane, fez um gesto com a cabeça para o condutor e o homem deu meia volta na charrete e seguiu seu caminho, cantarolando novamente suas músicas.

Ariane sabia que olhar ao redor era um terror, mesmo assim, enquanto era acompanhada por dois vigias, não conseguiu evitar, olhou e viu áureas de medo, das plantas, das pedras, dos soldados, e até de suas montarias. O mundo gritava, com certeza o que se tinha ali era uma anormalidade na natureza, uma verdadeira aberração, ela precisava ver e resolver todo aquele problema, agora ela sentia como se fosse um dever para com seu Venar solar.

Ela adentrou uma tenda um pouco maior que as outras, os vigias a deixaram só, logo a frente um homem levantou de uma cadeira que estava de costas para a entrada da tenda, lá dentro também tinha uma mesa, e uma jaula, que era para onde a cadeira estava virada. O homem era alto, forte, e vestia uma cota de talas de cor escarlate e uma capa azul, o rosto sem pelos e o olhar triste diziam muito sobre ele.

— Reverendíssima Ariane, me chamo Zamar, comandante desta tropa de exploração e caça, foi eu quem solicitou sua presença. — Ele falou estendendo a mão para um cumprimento.

Ariane enxergou muito daquele homem em pouco tempo, além da áurea roxa de ódio, era como se ele quisesse matar alguém, mas não pudesse. Negou-se a apertar sua mão, pois por trás dele, na jaula, algo mais estranho chamava sua atenção.

— Poupe-me de formalidades, comandante, me mostre o que tanto atormenta seus soldados e a própria natureza deste local. — Ela falou, tentando olhar com seu terceiro olho, por cima do ombro do homem, mas ele era mais alto. A jaula estava brilhando como uma chama ardente em sua visão divina.

— Sim... — ele hesitou por um segundo. — O que temos aqui vai além de qualquer explicação lógica. — Ele tossiu e puxou uma segunda cadeira para que a Numari cega se sentasse, ela se sentou, ele se sentou, então começou a falar mais claramente.

Zamar contou tudo sobre sua antiga tropa de exploração, sobre como chegou ao cargo de comandante, agitava as mãos enquanto falava. Ariane estava ouvindo, mas seu olhar estava totalmente voltado para a criatura na jaula, era como uma formiga monstruosa, apertada em um espaço pequeno para seu tamanho, seus olhos demonstravam sofrimento e desistência, sua aparência era horrenda em todos os aspectos, o exoesqueleto era sujo e deformado, as garras dianteiras eram enormes, provavelmente, quando em pé, a criatura ultrapassaria a altura do comandante. Ardia em chamas na visão do terceiro olho, como uma bola de fogo. Zamar concluiu sua explicação falando da criatura e das suas suspeitas quanto a criatura ter vindo do grande deserto, pois ela havia falado o nome de um amigo perdido, Valir.

— O deserto... Valir...— Ela sussurrou, olhando a criatura mais de perto com seu terceiro olho, o brilho que a áurea da criatura emitia, era completamente fora do comum, era intenso, como labaredas. Era a cor de uma alma humana, uma alma humana em desespero.

— Sim. — O comandante afirmou

— Certo, entendi a situação — Ela se levantou e se sentou no chão, em frente a jaula.

— Não se aproxime tanto, alimentamos essa coisa apenas uma vez por dia e sempre com frutas, se ela for carnívora, deve ser um pesadelo estar aqui. Ao primeiro sinal de carne ao seu alcance ela pode atacar. — O Comandante parecia estar zangado com a criatura.

— E por que você faz isso com um amigo? — Ela perguntou, com calma, colocando a mão dentro da jaula e tocando a cabeça da criatura que se mexia um pouco, em uma confusão total, parecia com medo e admirada, ao mesmo tempo.

— Amigo? Você... — Ele se levantou — Você está dizendo que esse é Valir? — Ele perguntou assustado. — Não, não pode ser! Esse monstro devorou Valir, por isso sabe seu nome!

— E por que Valir falaria seu próprio nome a um monstro, antes de ser devorado? — Ela manteve a serenidade, e tirou a mão da jaula. — Com todo respeito comandante, se retire, e peça para que todos fiquem longe da tenda, eu preciso de um tempo a sós com seu amigo.

— Mas... — O comandante estava sem reação, ele não esperava por algo assim, com certeza tinha chamado ela porque sabia de seus grandes dons, com relação aos infinitos planos de existência. Sua ideia era que ela entrasse na mente do monstro para descobrir tudo sobre o deserto, seria como conversar com os pensamentos obscuros da criatura, mas aquilo era demais. — Você tem certeza do que está fazendo?

— Eu nunca tive tanta certeza na minha vida. Por favor, faça o que pedi.

E assim foi feito, o comandante se retirou do local e deu ordens altas e claras, para que todos evitassem as proximidades da tenda. Os soldados não questionaram, apenas fizeram o que lhes foi ordenado. Enquanto isso, Zamar sentou-se aos pés de uma árvore ali perto, longe da vista de seus subordinados, porém com os olhos fixos em sua tenda. Ele não servia para ser comandante, ele sabia disso, desde que lhe deram aquele posto, mas o que aquela cega havia lhe dito ferira sua honra, bem mais do que feriria se tivesse lhe chamado de imprestável. Se aquele era mesmo seu amigo, então estava torturando um amigo preso em uma prisão eterna, havia dias.

Dentro da tenda, Ariane se preparava para realizar um ritual muito antigo de projeção astral, havia retirado a criatura da jaula, afastado a mesa e as cadeiras e em um espaço bem aberto ela deitou a criatura com calma, era como se o ser a entendesse, como se ele soubesse que aquela era a sua única esperança, e cooperava. Ela puxou um pequeno pedaço de giz de dentro de um pequeno saco que carregava e começou a traçar runas e símbolos por todo o corpo da criatura. Quando terminou, ela deitou-se ao seu lado.

— Tente respirar em harmonia comigo e adormeça, logo conversaremos, Valir. — Ela falou com uma calma e uma delicadeza sem fim. E começou.

A sua respiração tinha um ritmo bem diferente do da criatura no início, era como se ela estivesse se acostumando com o ar e ele estivesse cansado, então os dois foram se ajustando com o tempo, a criatura cooperou perfeitamente. Era como se estivesse banhada na calma de Ariane, como se a própria voz dela deixasse a criatura em transe. Logo sua visão iluminada foi escurecendo e ela se sentiu como se caindo em um poço infinito.

Quando voltou a se iluminar novamente, estava fora do próprio corpo, como um espírito de luz em uma dimensão confusa. A criatura, que estava em perfeita harmonia com suas vibrações, passara pela mesma coisa, e como magia Numari, o ritual estava completo. Lá estava ela, Ariane, e ele, Valir, pairando no infinito, como fantasmas perdidos em outra dimensão, um mundo confuso, cheio de rastros de memórias, lugares e pessoas.

— Se sente melhor agora? — Foi sua primeira pergunta.

— Sim, mas... eu não entendo, onde estou? Como isso tudo foi acontecer? — Era Valir falando, agora como uma versão de si mesmo, humano, brilhava em um tom esverdeado.

— Mantenha a calma. Se não, sairemos de harmonia. Mantenha a calma e foque em suas últimas memórias, não as memórias desse corpo maldito que carrega por aí, mas nas memórias de seu verdadeiro corpo. — Ela fez uma longa pausa, o silêncio reinou. — Me responda Valir, o que aconteceu?

A luz esverdeada, que cobria Valir, tremulou, era como um grito, porém silencioso.

— Eu fui morto por criaturas do deserto... — A voz dele vinha dupla, como se parte dela tivesse adiantada e a que vinha atrás trazia repetições, frações de segundos separavam as vozes estranhas.

— Certo, o deserto. Volte para as memórias desse corpo grotesco que abriga agora. — Ela fez outra longa pausa, claramente pensando no que ele havia dito, e lembrando da canção do condutor que a levara até ali. — Me responda Valir, o que é o deserto?

— Eu não... — Ele tremulou mais forte dessa fez — O deserto vive, ele protege suas crias, ele destroça almas e as abriga em corpos artificiais... — Ele tremulou mais ainda, sua voz parecia espremida, esganiçada, arrastada. — Eu sinto o deserto, suas direções, seu poder... — Engasgou-se e continuou com certa dificuldade. — Eu me sentia melhor lá, não tinha fome, sede ou dor. Eu era o deserto! — Sua voz mudou e foi como se ele gritasse do fundo de uma vala. — Por que eu não consigo falar?!

— Talvez não esteja acostumado com o próprio corpo ainda, com certeza também não deveria estar comendo frutas, sua áurea está manchada, seu corpo atual claramente é carnívoro. Sem carne você não viverá muito tempo. — Ela falava sobre isso, mas sua mente estava parada em “O deserto vive...” quando ele havia começado a falar sobre.

— Me diga, como isso veio a acontecer comigo? Eu pedi tanto aos deuses que me poupassem, pedi tanto que os Venar me livrassem da morte! Por que os Venar me abandonaram? — Ele falava rápido, com um tom choroso.

— Você acabou de se responder, Valir, você pediu aos deuses que lhe livrassem da morte e algum deles lhe atendeu, lhe dando uma nova chance. — Seu novo corpo é a sua nova chance. — Você recebeu um novo corpo. Nem sempre as graças que recaem sobre nós são como desejamos, mas sempre são úteis para algo.

— Eu não sou útil para nada mais que assustar pessoas, reverendíssima, agradeço muito por suas palavras e por me fazer entender, mas, por favor... — Ele tremulou mais uma vez — Me mate! — Sua voz foi tripla, como três pessoas falando ao mesmo tempo, uma delas mais atrasada que as outras.

— Não, você não pode morrer ainda Valir, você precisa nos guiar até o deserto. Você nos ajudará a encontrar a entidade que fez isso com você, nós precisamos dar um fim a qualquer mal que atormente a natureza, é o mínimo que podemos fazer em respeito às forças que moldaram o universo! — Ariane estava firme, em sua mente começava a traçar um plano, por algum motivo ela não esquecia a música do condutor e agora estava quase tudo se conectando.

— Como farei isso? Mal consigo andar. — Ele reclamou — Eu sinto o deserto, vocês não compreenderiam aquela coisa, não é um local, nunca foi um local... o deserto é bem mais do que os homens e Numari conseguem ver!

— O deserto é um Venar. — Ela o completou. — Certo, Valir?

— Incomparável a todas as outras coisas. Um deus das areias. — Ele tremulou pela última vez e desapareceu.

Por poucos minutos Ariane ainda permaneceu ali, refletindo sobre a antiga canção que o condutor cantara. Lembrando dos Venar que amaldiçoavam os homens, por puro ódio. Seria o deserto um Venar de puro ódio? Qual seria a extensão de seu poder? Ela queria chorar, estava com medo, definitivamente com medo, no entanto precisava voltar para seu corpo e explicar tudo ao comandante. Os humanos nunca foram bons com a natureza, mas agora, que o mal já estava feito, ela precisava manter a natureza pura. Um Venar de ódio não poderia viver. Como matar um deus?


E aí, gostaram? Sabe, eu escrevi pelo menos 4 continuações para esse conto, e nenhuma delas me agradou, agora, no exato momento, estou bem pensativo sobre continuar ou não essa história, esse mundo. Será que mais alguém quer isso?

Também tive uma outra ideia, essa um tanto mais ousada, mas quem sabe venha a se tornar uma saída mais divertida. Estive pensando: E se Anayr se tornasse um cenário para campanhas de RPG de mesa?



Enfim, tenho coisas para pensar e decisões a tomar.

Até a próxima, exploradores!

Publicada originalmente na Prosa & Pixel, no Substack. Ver no Substack · Assinar a Prosa & Pixel · Todas as edições