Recentemente eu reli alguns textos antigos. Eu tenho esses cadernos com vários textos antigos, de 2012 até 2016, onde eu rabiscava ideias, começava livros, detalhava mundos e personagens, mas nunca concluía nada. Pode parecer meio bobo, mas olhar para esses textos me fez refletir sobre minha carreira como um todo, e é sobre isso que eu queria conversar com vocês hoje.
Quando eu decidi que seria um escritor? Uma pergunta semelhante a essa pipocou em uma caixinha de perguntas que postei no instagram, e é meio esquisito pensar na resposta para ela, por que, de fato, eu nunca decidi isso. Aconteceu. Sabe quando você tropeça? Você não decidiu tropeçar, é como um acidente, apenas acontece. E por mais que eu ame a escrita, fazer dela a minha profissão foi quase um tropeço na vida, na verdade, eu diria que foi uma sequência de tropeços.

Eu cursei física bacharelado por uns anos, e eu gostava da ciência por trás daqueles números, sempre considerei que o conhecimento científico poderia mudar o mundo, se fosse melhor difundido, e claro, foi por isso que deixei de fazer física para fazer jornalismo, eu queria muito divulgar ciência. Depois de dois anos no jornalismo eu percebi que não era bem isso… Eu queria na verdade era escrever ficção científica, e deixar todo mundo maravilhado com aquilo. Eu estava apenas mascarando com a realidade, uma fantasia pessoal.
Repare que em momento algum eu pensei “quero viver da escrita”, eu apenas queria escrever algo legal, nem precisava ser grande, nem mais de um livro. Algumas pessoas me perguntam se é mais fácil levar a vida sabendo seu propósito, como se eu aceitasse que meu propósito é escrever até morrer. Eu sei que não é, mas então, o que seria?
Desculpa, mas ao longo desse texto, irei divagar um pouco mais que o normal, espero que não se incomode, e claro, espero que se identifique em alguns níveis.
O dia em que deixei tudo para trás…
No dia 26/10/2022 eu vi uma oportunidade em um grupo do facebook, nada tinha a ver com minha área de atuação, não tinha a ver com nada que eu entendesse, mesmo assim eu comentei algo como “Ei, eu escrevo algumas histórias, se quiser posso ajudar você com o background do seu projeto”. É engraçado lembrar disso, por que eu mal sabia o quanto isso poderia mudar TUDO.
Eu tinha acabado de sair de casa, tomei uma decisão esperta de morar com minha namorada, minha noiva atualmente. Quando você se coloca em uma situação assim, sua cabeça começa a processar informações de um jeito diferente, primeiro você começa a entender que 99% das coisas se resolve com dinheiro, depois você só pensa em ganhar mais dinheiro. Isso é perigoso.
O cara que fez aquela postagem era um empresário norte americano, vivia no Texas, ele era filho de brasileiros e estava, junto de um sócio, iniciando um projeto bem ousado, criar um concorrente para o maior site de webcomics do mundo. Eu não sabia disso quando mandei a mensagem em uma postagem aleatória dele. Quando ele me respondeu foi com uma mensagem privada, fez algumas perguntas e logo marcamos uma reunião.
Acho que de todas as reuniões que já tive na vida, essa foi uma das mais rápidas e impressionantes, nela falamos em um mix de português e inglês, e acertamos algumas coisas simples. Ele precisava de alguém para gerenciar um time de produção de quadrinhos, e eu precisava de dinheiro e sabia escrever quadrinhos. Foi o início de algo “lindo”. De repente eu tinha um emprego de tempo integral, com uma empresa norte americana, liderando um time de produção de webcomics, e escrevendo roteiros todo santo dia. Eu não podia mais fingir que não era escritor e, claro, não podia mais “perder tempo” no curso de jornalismo.
Eu tomei a decisão mais pesada no dia seguinte, quando chamei um professor querido para conversar e expliquei toda a situação para ele, e ele me respondeu com “Cara, tranca o curso e se joga no que você ama, se isso der certo, vai mudar tua vida pra sempre, se der errado, você volta pro curso”. Ele me deu a segurança que eu não tinha, e ele nem sabe disso. Eu concordei, tranquei o curso e me dediquei a esse trabalho.

Foi uma das decisões que mais alterou o curso da minha carreira, e por isso foi uma boa decisão.
Foi a decisão que mais prejudicou a evolução da minha carreira, e por isso foi uma péssima decisão.
Foi a decisão profissional que mais me deu dinheiro, e por isso foi uma ótima decisão.
Foi a decisão que mais me tirou o sono, a paz e a segurança psicológica que eu tinha, e por isso foi uma terrível decisão.
A partir daí, eu passei a me chamar de escritor.
Escrever dá dinheiro?
Olha… é uma pergunta e tanto. Eu diria que depende. E provavelmente a maioria dos escritores diria que não. Eu diria “depende”, por alguns motivos que vou listar aqui.
1- Se você escreve apenas livros e publica eles, seja com o apoio de uma editora, ou de forma independente, então não, escrever não vai te deixar rico. Talvez deixe alguma editora rica, ou talvez, com muita sorte, esforço, talento, magia, milagres, você consiga fazer um sucesso absurdo a ponto de ganhar mais do que gasta para tornar tudo isso a sua principal fonte de renda. Mas, de forma geral, não querendo lhe desanimar, escrever para ficar rico é uma pretensão muito mais ousada do que se imagina.
2- Se você escreve livros, contos, crônicas e poesias, publica tudo isso, ganha uma grana (provavelmente pouca), e consegue monetizar seu conhecimento através de curso, mentorias, consultorias e e-books educativos… é, da pra ganhar uma grana com isso, mas te adianto que eu, assim como outros profissionais da área, veem “redflags” enormes nesses termos “mentoria, consultoria, curso”, por que, de fato, o mercado está saturado de charlatões que vendem essas coisas como formulas mágicas, “métodos” super milagrosos, e ficam ricos as custas da ignorância alheia, sem de fato ajudar em algo. Conheço um monte desses.
3- Se você expandiu seu mercado de escrita para além dos livros e estudou roteiro, escrita criativa para games, quadrinhos, etc. Agora sim você está falando algo que faz muito sentido, é aqui que está o “pulo do gato”, expandir horizontes é o que dá dinheiro na escrita, saber escrever mais do que uma coisa só, e fazer isso bem. E com “fazer isso bem” não estou falando de dizer por aí que você faz bem, estou falando de mostrar resultados, ter portfólio. Dessa forma é possível ganhar dinheiro prestando serviços. Assim como eu já prestei serviços, já escrevi desde HQs americanas, contos, diálogos para jogos chineses e postagens para redes sociais, e ganhei dinheiro com tudo isso, às vezes ao mesmo tempo.
Dito isso, “depende” é a resposta mais correta. Eu sei como eu fiz para ganhar dinheiro com a escrita, não sei como outros fizeram para ganhar, mas também sei como outros fizeram para perder, e isso me ajuda a conseguir dizer por onde NÃO ir. É um processo complicado, mas é um processo, e como todo bom processo, temos etapas, um passo a passo (que eu poderia vender em um curso de 997, mas fico aqui falando com vocês de graça, por que, pelo que entendo, democratizar conhecimento me ajuda a ter mais credibilidade enquanto pessoa e profissional).
Enfim… Vamos mudar um pouco de assunto.
Escrevendo jogos e o futuro da minha carreira.
Atualmente 80% do meu tempo está dedicado a Asleep e isso é bom, eu tenho um emprego ali, escrever Asleep é um dos pontos mais altos da minha carreira. Sou MUITO feliz escrevendo narrativas interativas. Mas… e depois? Bem, em algum momento eu terei escrito tudo o que esse jogo precisa de textos, talvez a Black Hole Games tenha novos projetos e novos caminhos que possamos trilhar juntos, e vai ser incrível fazer mais jogos com eles, no entanto, eu não sei se é essa a carreira com o qual eu sonhei, se é que sonhei com isso em algum momento.
Veja, eu sou um escritor, e apesar de ter ganho mais dinheiro com a escrita de quadrinhos do que com jogos, existe um terceiro caminho que sempre foi o meu verdadeiro sonho, um caminho que deixei de lado por não dar tanto dinheiro quanto os outros e principalmente por ser mais comum, mais concorrido e bem menos divertido. Os livros. Eu acho que eu quero escrever mais livros. Na verdade, já falei isso antes para minha noiva, eu sinto que em algum lugar, em algum momento, existe ou existirá uma pessoa e que essa pessoa vai precisar ler algo meu, não sei por que ou pra que, mas essa pessoa vai precisar e eu preciso escrever esse “algo” para que no momento certo essa pessoa leia e isso ajude ela. Talvez, salve-a.
Esse é o sentimento que tem dado norte a minha carreira, seja nos jogos, quadrinhos ou livros, eu preciso escrever algo, e eu ainda não escrevi. Quando eu escrever, saberei, e nesse momento talvez eu pare. Ai eu vou dar aulas, ou sei lá… vender cursos, mentorias e consultorias hahaha.
Dito isso… Vamos ao anúncio.
Um novo livro
Dei início a escrita de um novo livro. Isso mesmo, estou escrevendo um novo livro, e não é uma continuação de Contos de Anayr, e nem nada assim. É algo único, que eu nunca mostrei nem mesmo um trechinho.
Essa é uma ideia que já vem me remoendo por dentro faz alguns anos, e que acredito ser uma ótima ideia para minha estreia no meio dos livros físicos. Também é uma daquelas coisas que eu sinto que precisa ser escrita, e que vai me ajudar a dormir melhor quando eu concluir, sem dúvidas. Esse livro está sendo chamado, por enquanto, de “Projeto Lágrimas de Cristal”.

Em breve eu vou dar mais detalhes dele nas minhas redes sociais, vou revelar sinopse, capítulo 1, talvez algum prólogo, e claro, a capa também. Eu acabei de começar e tenho vários planos para essa narrativa, por enquanto o que posso dizer é que será um livro único (sem trilogias por aqui :D) e ele terá inspirações em universos conhecidos do mundo literário fantástico.
Pra quem quiser acompanhar mais dessa escrita, estarei fazendo um diário de escrita em vídeo, em algumas postagens no meu instagram. Irei intercalar os vídeos de diário com alguns reels sobre livros, escrita criativa e curiosidades. Espero que curtam. E quem chegar lá por causa dessa newsletter, deixa nos comentários, vou adorar saber.
Indicações de leitura
Meu objetivo é que essa newsletter seja menor que as anteriores, mais direta, sem tanto “planejamento”, para soar mais natural. Mesmo assim, não posso deixar de indicar dois livros bem legais para vocês.
Esses são livros que me auxiliam até hoje na escrita de qualquer coisa.
ESCREVER FICÇÃO: LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL

SINOPSE: “Este é um livro imaginado para auxiliar quem deseja escrever textos de ficção.” O escritor e professor Luiz Antonio de Assis Brasil registrou aqui sua experiência ao longo de 34 anos ininterruptos de trabalho com a Oficina de Criação Literária da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, e também no programa de pós-graduação em escrita criativa na mesma universidade.
Com a perspectiva de um ficcionista dialogando com outros ficcionistas, ele apresenta ferramentas indispensáveis para a formação de um escritor. Avesso a fórmulas, Assis ressalta o papel da leitura constante de obras literárias para quem ser se tornar autor de ficção ― e são essas obras as grandes referências de seus cursos e deste manual indispensável, que contou com a colaboração do escritor e ex-aluno Luís Roberto Amabile.
ESCREVENDO PARA QUADRINHOS: BRIAN MICHAEL BENDIS

SINOPSE: Um dos roteiristas mais famosos nos quadrinhos contemporâneos, Brian Michael Bendis revela as ferramentas e técnicas que ele e outros autores de primeira linha utilizam para criar HQs e graphic novels de sucesso. Bendis usa como exemplos obras cultuadas como Vingadores, Homem-Aranha Ultimate, X-Men, entre outras, para orientar aspirantes a quadrinistas em cada passo do processo de produção de quadrinhos - da ideia à arte sequencial finalizada, passando pelo roteiro.
É isso pessoal.
Até mais, exploradores!
PS: Se você é autor de qualquer uma das imagens postadas nessa edição da Prosa & Pixel, me chama no privado para que eu possa atribuir os devidos créditos.

Publicada originalmente na Prosa & Pixel, no Substack. Ver no Substack · Assinar a Prosa & Pixel · Todas as edições