Na manhã do dia 24 de março de 2025 eu tive algo próximo de uma crise de ansiedade, eu não costumo ter crises, muito menos de ansiedade, então é fácil visualizar quando as coisas não estão certas. Sempre fui uma pessoa mais calma, centrada, gosto de ler, escrever, assistir uma boa série, brincar com meu cachorro, sorrir com minha noiva e dormir em paz, pensando bem, sou uma pessoa simples. Uma pessoa simples que nunca teve muito, mas que quer ter, talvez por isso eu consiga admitir o quão ganancioso eu sou.
Ser ganancioso é muitas vezes visto como um pecado cruel, querer mais do que se tem não deveria ser tão ruim assim se você tem tão pouco. Falo de coisas materiais, e não me apego ao sentimento “antimaterialista” nesse sentido, prefiro ser sincero, eu quero coisas, eu gosto de ter coisas, um PlayStation 5, um PC gamer, jogos de tabuleiro, os livros que sempre sonhei, boas roupas, a capacidade de sair quando eu quiser para fazer o que eu quiser com MEU DINHEIRO. Chega a ser estranho colocar essas palavras para fora, mas isso é por que estamos acostumados a não querer, a pensar pequeno sobre o que queremos, por que querer muito é pecado, é ruim. Vou te contar uma coisa: ruim é não perceber isso.
Eu estava desempregado, escrevi aqui sobre esse problema, sobre meu desanimo com a minha carreira, sobre a vontade de desistir e o sentimento constante de falha, a ausência de progresso. Tudo isso é sufocante quando dura tempo demais. Eu não estou mais desempregado, sufocado ou em crise, alguma coisa aconteceu. Vamos falar sobre isso.
A jornada até aqui… mais uma vez
Em 2024 eu tomei algumas decisões depois de uma grande mudança de cidade e de estilo de vida, a primeira delas foi criar essa newsletter. A segunda, e compartilhei isso aqui, foi começar a escrever um novo livro. Comprei material de estudo para ele, assisti coisas, estudei, pesquisei, me preparei, fiz vídeos sobre esse processo, sobre a produção, e depois… bem, depois eu parei. Eu não parei por que quis, eu parei por que eu não tinha dinheiro, não ter dinheiro é muito ruim. Quando falo isso, é mais sobre não ter dinheiro para além da sobrevivência, tudo fica, apertado, calculado, desconfortável. Você começa a se perguntar:
Por que eu vou fazer isso se isso não me dá dinheiro?
E é ai que a arte morre. Escrever, quando você cria, é uma arte, é expressão, e como todos nós sabemos, viver da arte é difícil. Eu parei tudo, naquele momento eu pensei “preciso de um emprego novo, mais freelas ou trabalhos, assim eu fico confortável e posso escrever meu livro”. Esse pensamento tem data de validade, e muita gente deve ter ele agora, ou vai ter em algum momento, ele sempre aparece. Esse pensamento consegue virar sentimento com o tempo, e o sentimento é raiva.
Eu desisti do livro, parei de estudar sobre criação de mundos e universos, personagens cativantes, heróis e lendas, parei de conhecer mais sobre o que estava me fascinando no momento e fui me dedicar a ganhar algum dinheiro, como se fosse apenas uma escolha qualquer, a jornada estava me moldando, eu acho. Eu não consegui fazer muita coisa, a raiva passa ou evolui, as vezes vira ódio, em outras ocasiões ela pode se tornar um eterno sentimento de fracasso, frustração. Decidi entregar o único dinheiro que eu tinha para uma psicóloga, ela poderia me ajudar. E ajudou.
Não demorou muito até que eu ressurgisse aqui, novas ideias, novos posts, EDIÇÃO ESPECIAL sobre Contos de Anayr e muitos novos pensamentos. Tinha quadrinho para ser escrito, tinha Asleep para ser revisado, tinha novas chances batendo na porta e portas sendo fechadas a todo momento. Vou te dizer, quando você se dispõe a tentar, tentar mesmo, com todas as suas forças, usando o máximo do seu tempo, fica difícil dormir. Fica difícil até de se divertir. E eu sempre me diverti escrevendo.
Quando você tenta muito, e não consegue a maioria das vezes nem chegar numa “entrevista de emprego”, você começa a observar melhor algumas coisas. O que eu observei foi que existia um caminho cheio de barreiras entre mim e aquela pessoa/empresa que precisava do meu serviço, o caminho estava nas redes sociais, e-mails, mensagens, amigos, etc. As barreiras eram formulários, recrutadores sem noção, etapas infinitas de seleção, testes abusivos e uma gigantesca placa onde estava escrito “PROVE SEU VALOR”.
Seu valor, no mundo atual, não é decidido pelo que você pensa, mas pelo que você faz. Pode soar ruim, mas é um fato, se você não concorda, cuidado, você pode estar ouvindo coachs demais.
As pessoas só sabem sobre você aquilo que você fala, que você mostra, que você faz. Ninguém consegue ler sua mente, e isso é real, expor medos, pesadelos, vitórias e sonhos é uma necessidade real para aqueles que buscam algo, não importa o que seja. Se você expõe, se torna mais real, sabe por que? É simples, o que está só aí, na sua cabecinha, não existe. Não existe ainda.
Um tiro no escuro
Um amigo me falou no dia 18 de Março que tinha conseguido um emprego, ele agora ia fazer animações em um jogo. Ele me mandou o link do jogo e fiquei surpreso, o jogo rodava direto na Web, mas tinha uma qualidade visual digna de jogos de console. Era um jogo de cartas, tinha semelhanças com GWENT (um jogo de cartas do universo de The Witcher) e me lembrou de imediato outro jogo, mais famoso, Legends of Runeterra, o jogo de cartas baseado no universo de League of Legends.
Eu tinha estudado esse universo ali atrás, quando estava planejando um livro que nunca foi escrito.

O jogo não tinha narrativa, mas seria muito melhor se tivesse. Eu percebi isso, mas não havia uma vaga, uma pessoa com quem falar sobre, nem mesmo meu amigo, lá de dentro, sabia se haveria planos para narrativa. Foi ai que eu vi uma oportunidade de dar um tiro no escuro, e comecei a elaborar um plano. Eu desisti dele no dia citado no começo dessa newsletter, o dia 24.
No dia 25 de Março, pela tarde, depois de mais alguns momentos de “desespero” por não conseguir emprego, dinheiro ou qualquer conforto comigo mesmo, eu decidi trazer esse plano de volta, sabe? Quando você pensa demais você desiste, mas se você desiste e volta para a ideia, você não pensa tanto antes de executar ela. Abri o site pitch.com e comecei a elaborar uma estratégia narrativa para aquele jogo de cartas que eu tinha visto. Pensei em tudo, agi como se eu trabalhasse nele.
Primeiro eu achei a arte das cartas no portfólio online do artista do projeto, o que não foi fácil, mas deu certo, as artes eram em full HD e seriam perfeitas, comecei a elaborar todas as soluções narrativas para o jogo, de forma simples, direta, sem muitos detalhes para não exagerar. Apontei os erros, fiz críticas pesadas ao que estava sendo feito, e demonstrei por A+B, usando exemplos do mercado, que jogos de carta que possuem narrativa conseguem prender o jogador por mais tempo que jogos de carta sem narrativa. Eu estava colocando naquele pitch de elevador uma promessa a quem lesse, e essa promessa era “eu consigo tonar o seu jogo melhor do que ele é”.

Na vida, a gente aprende que muito do que consumimos são promessas. Abrir um livro para ler, um jogo para jogar ou um filme para assistir é, em sua essência, acreditar em uma promessa feita por alguém de que aquilo será bom. Assim como o marketing digital, de forma geral, é baseado em fazer as pessoas acreditarem nas promessas feitas. A política também é assim. Promessas são a base de muita coisa, mas a gente ignora esse detalhe e apenas tenta aceitar o que vem depois.
Eu preciso cumprir as promessas que faço. E essa era uma das mais importantes, por que lá no fundo eu sabia que conseguia, mas aqui, na superfície dos meus pensamentos, existia uma pequena versão de mim se perguntando “consegue mesmo?”
Eu enviei o pitch direto para o CEO da empresa, ele me respondeu horas depois, ele disse “Vamos marcar uma reunião, amanhã você tem tempo?”. Nós marcamos, no dia 26 de Março eu conversei com ele, um homem de muitas palavras, um sotaque carregado, ele é Europeu, mas fala inglês, eu dei o meu melhor nessa conversa, e deixei clara as minhas intenções, como falei, ele não sabe ler mentes. Ao fim da reunião eu assinei um contrato, no dia primeiro de Abril eu comecei a trabalhar no projeto. Parece até mentira né? Mas é real.
Foi um belo tiro no escuro, uma estratégia ousada, mas funcionou. Agora eu só preciso suportar aquela voz chata me questionando, e fazer o melhor trabalho da minha vida.
Você pode conferir o jogo clicando aqui, ele ainda não tem narrativa desenvolvida lançada, mas terá. Eu prometo.
Sobre conseguir
Existem alguns fantasmas em conseguir o que você quer, existe um tédio que não se desprende do sentimento de ter, aquele famoso tédio de possuir. Não podemos nos apegar a isso, mas me diverte pensar na jornada até o “conseguir”, sabe por que? Vou te elencar umas coisas.
Eu trabalho em Asleep, um jogo onde elaboro e desenvolvo o mundo, diálogos, pensamentos da protagonista e acontecimentos, o jogo possui uma narrativa forte, e foi o primeiro jogo que lancei.
Eu também faço roteiro de quadrinhos (e na próxima newsletter falarei novidades sobre isso), e quadrinhos é muito sobre diálogo, sobre falar com imagens e principalmente sobre criar personagens importantes, heróis ou não.
Eu leio bastante, estudo universos, a criação deles, as origens das ideias, dos mais antigos aos mais recentes, eu fiz isso alguns meses atrás, eu continuo fazendo isso hoje. Eu também leio antes de dormir, leio fantasia, estruturas narrativas diferentes e muita coisa que preciso tirar da cabeça ao acordar, e adoro o que leio ali, adoro aquele momento antes de cair no sono, com o livro ou o kindle na mão, fugindo da realidade, das rede sociais e dos barulhos da mente.
Absolutamente tudo isso parece ter me preparado para conseguir.
As coisas são como são, mas eu sinto que nunca estive tão pronto para fazer o que eu preciso fazer como estou agora, e a pergunta que fica é: A jornada me moldou ou eu moldei a jornada?
Pensem a respeito.
Até mais, exploradores!
Publicada originalmente na Prosa & Pixel, no Substack. Ver no Substack · Assinar a Prosa & Pixel · Todas as edições