O fim de um ano e o começo de outro
Quando eu termino um ano, não importa qual ano seja, eu sempre dou uma pausa. Uma pausa do barulho que minha mente faz constantemente enquanto escrevo, leio ou jogo… Esse ano de 2024 passou e passou rápido, porém, passou como um trator, demoliu crenças, desejos e deixou espaço para o renascer de uma vida que eu achava que já tinha passado, uma vida na minha cidade natal. A verdade é que deixar o passado no passado é mais difícil do que permanecer no presente, e permanecer é o que todos querem. Poucos conseguem.
Quando eu percebi que o ano estava chegando ao fim, eu fiz uma postagem aqui, daquele tipo inspirador, eu sempre gosto de fazer coisas assim, me agrada saber que alguém me leu e depois sentiu vontade de escrever. Meus planos eram bem simples, vou parar por uma semana, depois volto com tudo, preciso contar ao mundo um pouco mais sobre um livro que estou escrevendo. Nada disso aconteceu.

Fazer planos sempre foi algo que gostei, eles normalmente se realizavam, mesmo que o plano não saísse como planejado, ele saia, e era bom. Quando fiz os planos para 2025, eu senti algo diferente, eu sabia que eles não iam se realizar, sabia lá no fundo que algo estava errado, e que eu precisava me reestruturar de algum forma. Quando janeiro começou eu pensei em abandonar as redes, deixar essa newsletter para trás e sair de vários projetos, me segurei contra essa vontade.
Entre Janeiro e agora, 2025 foi um poço de planos abandonados e muitas vozes abafadas, tudo para que eu pudesse me concentrar em uma mudança do “eu”. É muito difícil escrever qualquer coisa quando você está insatisfeito com quem você é, essencialmente, e isso não se refere a minha profissão, ao meu noivado ou às minhas amizades, mas a um conjunto de coisas mais internas, desde pensamentos invasivos até atitudes mal pensadas. Coisas que parecem fugir do meu controle, mas que tenho visto na terapia que não é bem assim.
De qualquer forma, tenho me cuidado, e agora eu tenho alguma noção de para onde estou indo, apesar do caminho ainda estar nebuloso.
A direção de uma alma
Recentemente eu completei o jogo God of War: Ragnarok, e que jogo né? É um daqueles que impressionam do começo ao fim, fazia tempo que eu não jogava tão incansavelmente algo tão bom. Esse jogo me ajudou a ver algumas coisas relacionadas a crescimento pessoal, e também sobre a direção de uma vida. De diversas formas esse jogo trabalhou esse tema, essa ideia do “eu” devastado tentando se tornar alguém melhor, alguém diferente, maior, aprimorado. Eu não sou uma pessoa devastada, mas posso vir a me tornar caso eu não encontre o caminho correto, a direção.

Quando eu comecei a escrever um novo livro, ainda ano passado, eu me questionei várias e várias vezes o que eu estava contando ao leitor, que história era aquela, e quando eu não encontrava a resposta definitiva para isso, eu travava, parava de escrever e recomeçava. Eu fiz isso tantas vezes que esqueci do prazer de escrever aquela história, e depois de alguns meses ela foi pra gaveta, acumular poeira junto de outras tantas que passaram pelo mesmo processo. Sinto que o problema não está com as histórias, está comigo, e eu estou resolvendo isso.
Quando você consome muito daquilo que você ama, e você trabalha com isso, se torna impossível não se comparar aos seus ídolos, e entre a comparação e o perfeccionismo existe apenas uma ponte, uma ponte bem pequena, uma ponte que funciona quase como uma esteira rolante, uma vez que você sobe nela, você fica cruzando os lados, infinitamente. Se comparar e nunca finalizar, perdido em um perfeccionismo besta, sem direção, sem caminho, sem propósito, perdido em um “eu” que não existe, foi inventado, por si, para garantir que você não mude, pois mudança gera desconforto, e inconscientemente você luta para permanecer no mesmo lugar. O lugar confortável.
Da decepção aos novos planos
Em “O Nome do Vento”, um dos meus livros favoritos, Kvothe fala (Capítulo 64): Um momento na mente vale nove no fogo. Eu nunca me esqueci dessa frase, ela me dá a resposta para o que eu preciso, sempre que estou diante de uma fogueira (problemas demais). Antes de entrar no fogo para resolver seus incêndios, entre na sua mente, valerá nove vezes mais, e isso me acalma. É na mente que estão as respostas, mesmo diante das decepções.
Eu me decepcionei mais vezes em 2025 do que em 2024 inteiro, e olha que estamos em março ainda, mas, aparentemente, decepção não se preocupa tanto com o tempo quanto a gente, que criou esse conceito. Aprendi com minha noiva que o tempo só existe pra gente, para os nossos traumas e dores ele é um conceito que nunca foi inventado, por isso, tento olhar diferente para alguns aspectos que a vida me força a ver.

Tenho amigos que achei que não veria nunca mais, e estavam comigo recentemente, e amigos que imaginei que veria todo mês, e que não vejo faz quase um ano. Isso dói, mas eu não quero falar muito sobre isso, amizades… Eu tinha um contrato com uma editora, íamos publicar quadrinhos, eu escrevi mais de 100, sabia? Alguns eu sei que jamais verão a luz do dia. Essa história me fez rir alguns dias depois, eu reclamei sobre atrasos e a falta de um planejamento, e recebi um e-mail de rescisão de contrato, simples assim, aparentemente eu não sou a única pessoa com problemas psicológicos. Meu caminho sempre se cruza com o de gente que está mais perdida do que eu, mas por achar que sabe o caminho, prefere a escuridão das próprias decisões ruins do que a clareza ao assumir erros. Isso não me diverte, mas me ajuda a encontrar aquilo… Direção.
Kvothe fala, no capítulo 87 de “O Nome do Vento”: A sabedoria impede a ousadia. Em outro momento, em outro livro, uma personagem fala ao Kvothe “tantos pensamentos, meu Kvothe. você sabe demais para ser feliz”. Frases assim me fazem pensar que, por ter sido considerada uma criança inteligente, um adulto inteligente, e uma pessoa esperta, a vida toda, eu nunca me permiti errar. E para ser feliz é preciso ter ousadia, saber errar, aprender enquanto se arrisca, e principalmente, ser ignorante na medida certa, pois sem o egoísmo medido somos entregues às vontades que não são nossas. A vida é assim, uma bagunça de equilíbrios entre coisas boas e coisas ruins, boas para quem? Ruins para quem? São perguntas válidas.
Eu tenho novos planos, e não vou falar muito sobre eles hoje, eu vou mostrar para vocês em breve, e vocês vão se divertir me acompanhando nisso, as coisas mudaram, mas mudaram para melhor. Melhor pra mim.
A seguir, um micro conto, para encerrar essa conversa :D
Micro Conto: O Rio
Ele estava sentado a beira de um rio, era o rio que tirara a vida de suas pessoas queridas, mesmo assim ele não sentia raiva do rio, sentia raiva do destino, o destino que permitira a morte dos seus. Ele esperava todo dia uma resposta, e acreditava fielmente que ela viria do rio, uma resposta para os acontecimentos, uma resposta para as dores. Um dia, ele caiu no rio, nesse dia ele se afogou. Você sabe que eu não estou falando sobre um rio, não é?
Até mais, exploradores!
Publicada originalmente na Prosa & Pixel, no Substack. Ver no Substack · Assinar a Prosa & Pixel · Todas as edições