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Contos de Anayr10 min de leitura

Belian, a floresta gélida

Frederic Edwin Church, Aurora Boreal, 1865. Smithsonian American Art Museum, domínio público.

Em Anayr o sol brilhava forte, mesmo naqueles dias considerados escuros para as raças governantes do mundo, mas isso não era de grande importância para os Lumar, sendo eles a raça dominante mais antiga, viva, de todo o mundo. Os Lumar eram filhos da lua, ou assim diziam seus sábios, sua vida era noturna e o sol pouco era visto pelos olhos avermelhados ou violetas daqueles que possuíam a pele acinzentada. Muitas cidades foram erguidas nas madrugadas de Anayr pelos Lumar, e uma delas era Dávia, a cidade gelada.

Dávia ficava no extremo sul do mundo, próximo aos grandes desertos de gelo e não era um lar de muitas histórias ou uma cidade grandiosa, nada mais era que uma cidade simples, de casas simples e pessoas simples, nem mesmo sua força militar ganhava destaque diante das outras Lumarianas, porém era sua localização que atraia viajantes do mundo inteiro, até mesmo de outras raças. A cidade ficava próximo à entrada de Belian, a floresta gélida, uma das maiores florestas do mundo e sem dúvidas a mais misteriosa, diziam as lendas que era dela que vinha todo o frio do mundo e todo o gelo que banhava aquela região, gelo esse que havia criado os desertos brancos. Os livros mais antigos falavam sobre o coração de Belian, uma joia azul mais rara que qualquer outra, um espirito de gelo e frio, cristalizado e ativo eternamente. Era por essa joia que muitos visitavam Dávia a caminho de Belian, pois nenhum Lumar havia visto aquela joia, e todos a desejaram.

— Mãe, é verdade isso que dizem? Essa joia existe mesmo? Já que ninguém nunca conseguiu pegar ela, por que dizem que ela existe? — A doce voz de Daviane encantava até o mais selvagem dos ouvidos, era uma garota simples, como todo o povo de Dávia, mas diferente de todo o povo, Daviane desejava sempre saber mais, ela era curiosa, tinha em si um desejo por conhecimento e um amor pelo misterioso, tinha ainda doze anos naquele dia e já havia lido mais de 30 livros que só os velhos liam, eram livros de conhecimento.

A mãe de Daviane nada disse em resposta a sua filha, ela sabia que tocar nesse assunto era ruim, seu marido e pai de sua filha havia sido um dos que se perderam em Belian em busca de seu coração, e nunca mais voltara, Daviane sabia disso e por isso estudava tanto sobre a floresta, no entanto se dissesse à menina que a joia não existia era o mesmo que dizer que seu pai morrera por nada.

— São gananciosos os Lumar, não são todos que se acostumam com a simplicidade que você vê em nosso lar, minha filha. Seu pai foi um desses gananciosos, eles sempre fogem para se agarrar a qualquer coisa que lhe dê esperança de mudança. Essa joia existindo ou não, é um ponto criador de esperança para aqueles que pouco tem e muito sonham em ter, já pensou quanto reconhecimento terá aquele que a possuir? Ou quanto dinheiro lhe darão? Ou quantos títulos receberá de seu rei? — Daviane era atenta às palavras de sua mãe, ela era sempre cuidadosa, mas nunca lhe faltava com a verdade por trás das linhas que lia.

Quando o sol estava nascendo, e esta era a hora em que os Lumarianos costumavam ir dormir, Daviane teve uma ideia e diferente de sua mãe ela não dormiu, ela levantou de sua cama, amarrou seu precioso cabelo dourado, deixou seus olhos violetas olharem por todo o quarto em busca de algo útil a seus próximos passos, e reuniu o que tinha encontrado. Com uma bolsa nas costas e uma adaga na cintura a garota de apenas doze anos deixou a cidade a caminho de Belian. Ela precisava buscar com seus próprios olhos o que nenhum dos Lumar havia encontrado, ela não sentiu medo, arrependimento ou mesmo chegou a pensar em desistir ao longo do caminho, Daviane era sem dúvidas dotada de algum dom que sempre a fazia seguir em frente no que se diz respeito a busca por conhecimento.

No caminho até Belian ela cantarolou as músicas que sua mãe lhe ensinara ainda uns anos antes, músicas sobre o passado das terras de Anayr, sobre as florestas dos Venar, filhos da natureza, Venair era o nome desse lar de arvores coloridas e natureza forte, cantou também sobre a invasão dos Numari, os povos do mar que de longe vieram em embarcações e com seus três olhos olharam para os Lumar com ódio e nunca fizeram amizade, e finalizou seus cânticos quando chegou com muito frio até a entrada de Belian, quando ela cantou o último verso sobre as florestas luminosas do norte, lar de muita luz, onde durante a noite as árvores brilhavam como estrelas e durante o dia abrigava feras noturnas.

— Olá grande Belian, eu vim conquistar seu coração. —Disse ela, parando, colocando sua bolsa no chão e tirando dela uma manta grossa que sua mãe lhe dera para usar nos dias mais frios enquanto dormia, então se cobriu com ela e voltou a pôr a bolsa nas costas. Os próximos passos de Daviane poderiam ser os últimos e foi nesse momento, e só nesse momento em que ela olhou para trás e viu a imensidão que havia andado, viu suas pegadas se desfazendo com o vento e sentiu em sua pele o sol que poucos Lumar gostavam de sentir, imaginou ela se seu pai havia feito esse mesmo caminho.

Os primeiros momentos na floresta não foram assim tão assustadores como Daviane imaginava que seria, no entanto foi quando a fome e a sede lhe atingiram que ela sentiu que poderia não sair mais da floresta. A comida que ela havia trago era pouca, a água havia congelado pouco antes de entrar ali e não havia frutas naquelas árvores gigantescas e esbranquiçadas. Ela parou ao pé de uma das árvores, encostou-se em sua raiz e abriu a bolsa mais uma vez, precisava comer pelo menos uma das três ultimas frutas que havia trago, foi então que o primeiro perigo se apresentou para a menina, aves do gelo, conhecidas pelos Lumar como Belinares, as aves de Belian, eram pelo menos cinco a pousar na árvore em que Daviane havia se encostado e agora estavam atentas e vigiandoa comer, Daviane sem pensar duas vezes, sacou sua adaga e única arma e ficou com ela em mãos.

Após comer e descansar um pouco a garota se pôs a andar novamente, as Belinares ainda a seguiam e ela não havia voltado a guardar sua adaga, as aves eram brancas e brilhosas, e seu bater de asas derrubava flocos de neve, diziam que seus bicos eram tão fortes que perfuravam ossos com facilidade, seu tamanho variava de 80cm a 1,10m de uma ponta da asa a outra, eram as que se beneficiavam com os corpos daqueles que se perdiam na floresta. Provavelmente aquelas aves iam a perseguir até verem ela dormir ou cair morta por algum canto e então iriam se deliciar de sua carne.

O primeiro susto que Daviane teve veio no momento em que pensou em dormir, ela havia encontrado uma caverna, bem, não era tecnicamente uma caverna, era um buraco em uma árvore capaz de abrigar uma ou duas pessoas, ela entrou ali e o que encontrou foi um corpo, estava podre, porém não fedia, o gelo que o cobria havia lhe arrancado essa característica triste. Ele não tinha nada que se pudesse aproveitar, estaria ali a quanto tempo? Ela se perguntou, seria seu pai? Ela duvidava muito, sua mãe dizia que seu pai sempre andava com uma ou duas espadas na cintura e aquele não tinha nada além de facas cegas e pequenas, mas sim, era um Lumar. Ela atirou o corpo para fora da “caverna” e deixou que os Belinares devorassem ele, perfurando a crosta de gelo que cobria o corpo gelado e podre e mordiscando a sua carne fria. Ela arrastou neve para a frente da entrada e fez uma tampa com o gelo amontoado e lá dentro ela adormeceu. Que aquele havia sido o pior dos sonos de sua vida não havia dúvidas, o mais frio também, e ela acordava a cada minuto com medo da tampa de gelo se desfazer e os Belinares entrarem ali.

Ao acordar, Daviane sentia fome e sede como nunca, e já pensava em desistir e voltar para casa, mas a pergunta que lhe assombrava era “Eu sei voltar? ” Ela não havia marcado o caminho e suas pegadas já haviam desaparecido, junto com os Belinares que agora já não estavam mais ali, somente ossos restaram do corpo do pobre Lumar que encontrara. O desespero e o medo cresciam lentamente no coração de Daviane, ela precisava logo encontrar a joia, o coração de Belian, ou morreria ali, como aquele Lumar, como seu pai. Ela se pôs então a andar mais depressa, mal sabia ela que andar devagar era uma opção ainda melhor, pois pouparia suas energias finais, andando depressa ela tropeçou em pontos e em um deles ela tropeçou em uma raiz e caiu, ferindo seu braço e sua testa, sem dúvidas ela não estava com sorte, após algum tempo ela largou a bolsa em um canto qualquer para que pudesse andar mais rápido ainda, sua esperança estava em encontrar a poderosa e mágica joia e ela lhe tiraria dali, seja lá como a mente de uma criança imaginava que fosse seu funcionamento para tal função.

Foi quando não tinha mais forças para andar, nem para grita e nem mesmo para se rastejar que Daviane desistiu, agarrou-se a uma árvore gigante e tentou cavar seu tronco para fazer mais uma “caverna”, agora ela entendia como o Lumar que encontrara havia morrido, agora ela sentia medo, estava arrependida e sem dúvidas não tinha mais coragem de prosseguir, seria melhor morrer ali, de fome e sede do que destroçada por seja lá qual fossem as feras que pudessem estar de olho nela desde que entrara ali, pois ela sabia que não estava só, e isso já havia muito tempo. Daviane desistiu até mesmo de cavar o tronco quando percebeu que era loucura fazer aquilo com as mãos, olhou a copa das árvores e sorriu, ela havia chegado tão longe e feito tanto, mesmo sendo só uma garotinha de doze anos, estava orgulhosa de si mesmo e sabia que se sua mãe a visse assim também ficaria orgulhosa, ou quem sabe só lhe desse um dos seus maiores sermões.

— Eu desisto, Belian. Pode me levar para onde levou meu pai e todos os outros Lumar que entraram aqui, guerreiros fortes e nobres, gananciosos e viajantes. — Foram as suas últimas palavras antes de sentir o frio crescer exponencialmente.

Os passos dele eram os causadores do crescimento do frio, sua aproximação, seu brilho, sua existência. Venar de gelo, Belian, Daviane foi a única entre os Lumar que viu este espírito de muita luz, ele se aproximou dela e a viu morrendo, mas diferente de todos os outros que antes andaram e morreram por ali, ela era uma garota, uma fêmea de sua raça, e pura, pois em seus doze anos mal sabia o verdadeiro significado de viver a vida, não conhecia o amor ou o terror, e os piores momentos dela haviam sido resumidos em dormir com muito frio e medo, sem dúvidas um Venar não poderia deixar que ela morresse ali.

Os Venar foram os primeiros em Anayr, a primeira raça no mundo, os verdadeiros filhos da natureza, eram senhores da floresta Venair, a floresta que cobria o mundo, e guardaram ela até o seu cair no alvorecer da raça dos Numari, no alvorecer da raça dos Lumar, quando muitas regiões morreram e somente uma restou, hoje no Leste. Haviam antes Venares para todas as coisas e a natureza deu a eles a tarefa de fazer do mundo o que ele era, desde o fogo ao ar, até as rochas e a água, desde as nuvens até a espuma do mar, desde a vida até a morte, do gelo aos minérios, das folhas até os animais. Deles os Lumar conheciam bem mais as músicas que a presença.

Os olhos de Daviane se fecharam ao ver o seu salvador, pois ela sentiu paz em seu frio e calma em seu toque gelado, era luz sem rosto, e voz sem fala, ele dizia para ela ter calma e aquilo a deixou como ele desejava. Daviane acordou deitada na entrada da floresta, com sua bolsa, coberta com sua manta e sem fome ou sede, somente os ferimentos no braço e na testa estavam lá como lembrança, o sol estava se pondo no horizonte e chegando até ela, de longe, vinham cavaleiros de Lumar em cavalos negros e fortes, eles a buscavam em nome de sua mãe, e quando a encontraram ela lhes contou a história de sua viagem, mas ninguém acreditou, pois ela era jovem demais para ter feito tanto, ainda mais pelo fato dela ter saído de casa a nada mais nada menos que 12 horas. Ela se sentiu confusa e descrente até mesmo de si, porém entregou a culpa de tudo aquilo ao Venar que a havia salvo. E agora ela era não somente a única dos Lumar a ver um Venar, mas também a única das Lumar a entrar na floresta gélida e a única a sair de lá viva e também a única que sabia da verdade por trás da floresta, não havia joia mágica ou seja lá o que atraísse os Lumar e outras raças até lá, o que havia na verdade era um Venar triste e solitário, o único dos domínios de gelo. No fim, seu pai havia mesmo morrido por nada.

David Stéfano, assinando como Kael Angeli

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