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Prosa & Pixel16 de julho de 20258 min de leitura

A Palavra Como Dívida, Mapa e Fogo

Uma análise da antologia "Cantiga dos Novos Bruxos e Outras Artes Proibidas"

Atenção: O texto a seguir contém spoilers do livro analisado :D

A magia das palavras é algo pouco descritível, por mais que tentemos. Escrever é uma arte — e, mais do que isso, criar é arte, independente dos meios usados para isso. Há algo de sagrado e ao mesmo tempo incômodo nesse gesto de contar histórias, como se estivéssemos sempre à beira de tocar algo antigo demais para ser nomeado. E talvez seja por isso que, quando uma obra consegue se aproximar disso, a gente sente de imediato.

Foi exatamente o que aconteceu quando vi a capa de Cantiga dos Novos Bruxos e Outras Artes Proibidas pela primeira vez.

Capa do Livro “Cantiga dos Novos Bruxos e Outras Artes Proibidas”, por Ariel Bertholdo

Não apenas pelo título intrigante ou pela arte lindamente composta, mas pelo conjunto da obra. É raro, mas às vezes acontece: a capa me ganhou antes mesmo da primeira linha. E comigo isso não é comum. Admito que julgo livros pela capa — e essa, em especial, me venceu fácil.

Mas o mais importante é que o conteúdo entregou. E entregou bem.

O Prefácio

O livro, publicado pela Perene Editorial e organizado por Filipo Braziliano, reúne três contos que se propõem, cada um à sua maneira, a investigar os limites da magia, da palavra e da criação. O subtítulo “outras artes proibidas” não é enfeite. Ele é guia. Ao longo da leitura, entendi que o que une esses textos é justamente essa tentativa de fazer da escrita algo mais do que entretenimento. Aqui, ela é evocação. Risco. Dívida ancestral. E, acima de tudo, encantamento.

É uma coletânea breve — três contos, um prefácio — mas nada aqui é raso. Ao contrário, cada história trabalha com camadas narrativas que não se esgotam na superfície. Magia não é só feitiço ou pirotecnia. Magia aqui é vínculo, é culpa, é poder que nos antecede. Palavras, aliás, também.

Logo no prefácio, assinado por J. R. P. Lima, essa ideia é tensionada com sensibilidade: as palavras fazem coisas conosco. A literatura é entendida como ato mágico e insurgente. Ao mencionar Jorge Larrosa, o autor convida o leitor a um pacto silencioso: quem lê, vive mais de uma vida; quem escreve, remonta o caos. Não é um prefácio de exaltação gratuita aos autores ou contos, felizmente. É um texto que já nos situa naquilo que importa: escrever é também uma forma de conjurar e romper, e talvez por isso tanta gente tema a cultura.

Conto #1: A Mandingueira

Arte por Ariel Bertholdo

Esse olhar simbólico que captamos no prefácio se estende ao primeiro conto, “A Mandingueira”, de Mylena Araújo. Aqui, somos lançados em um ciclo de morte e renascimento marcado por um fardo herdado: Pedro é filho de um escritor — e paga por isso. A maldição que o persegue vem da escrita do pai, e a narrativa brinca com a metalinguagem como maldição viva. A ambientação transita entre o sombrio e o mítico, em uma geografia quase sensorial onde elementos como o corvo, a caverna e o espelho são mais do que símbolos, são dispositivos mágicos que conduzem a trama. A escrita de Mylena é lírica, às vezes até demais, mas isso não quebra o encanto sombrio do conto. Ao contrário, acentua sua natureza cíclica e triste. O final não oferece resolução — e isso é um acerto. O realismo fantástico aqui não serve à catarse, mas ao desamparo.

Há algo de profundamente melancólico na forma como A Mandingueira se constrói. Pedro não é apenas um protagonista preso a uma maldição: ele é, acima de tudo, um filho que herdou a linguagem como sentença. A narrativa se utiliza da fantasia para discutir o trauma intergeracional e a dificuldade de escapar do destino narrado por outros — no caso, o pai escritor. A escrita de Mylena ecoa essa prisão: repete imagens, dobra símbolos, reforça a circularidade do tempo e do espaço.

A caverna, o espelho, o corvo, a velha — todos são arquétipos clássicos que funcionam como espelhos de uma subjetividade fragmentada.

O mais fascinante, para mim, é como o conto termina sem redenção, sem escape, como se escrevê-lo fosse parte do próprio feitiço. Mylena escreve com raiva contida, como quem sabe que contar histórias pode ser uma forma de vingança. Ou de sobrevivência.

Sobre a Autora

Mylena Araújo é escritora de fantasia sombria e futura tradutora de espanhol. Adoradora de vilões, sempre dá um jeitinho do antagonista ter mais impacto e tempo de cena em suas histórias. Publicou seu primeiro calhamaço em 2012, Valera — A magia não deve morrer e em 2014 lançou o romance de ficção científica A sombra de um outro mundo no Wattpad, atualmente com mais de 35 mil leituras. Também publicou o conto de terror Não diga seu nome na Revista Perpétua. Ama chuva, bebidas geladas e gatos.

Conto #2: Cauda Draconis

Arte por Ariel Bertholdo

“Cauda Draconis”, de M. P. Neves, muda o tom e o ritmo, puxando para uma fantasia mais estruturada, com cara de grimório, mapa e estudo. O conto nos apresenta Godric, um geomante metódico, e sua interação com uma escapulomante excêntrica. O encontro entre os dois é quase uma alegoria da própria escrita fantástica: ciência e intuição, cálculo e presságio. A mitologia das “linhas de ley” é bem explorada, e o conto ganha força por seu embasamento simbólico denso. Ao final, descobrimos que o que parecia rocha era osso, e que o guia idoso era o verdadeiro necromante. O texto, mesmo com seu excesso pontual de exposição, nos leva a um momento de revelação apocalíptica digno de uma boa história de terror cósmico. Me lembrou, em tom e estrutura, certos momentos de O Rei de Amarelo ou até algo de A Terra Partida, da N. K. Jemisin, especialmente na maneira como o mundo em ruína espelha a ruptura dos próprios fluxos mágicos.

Neves nos oferece um conto que, por sua estrutura e vocabulário, flerta com o ensaio ocultista. Ler Cauda Draconis é como abrir um manuscrito antigo e tentar decifrar uma equação escrita em magia e lógica telúrica.

A escolha do protagonista, um geomante, já rompe com o clichê do mago-herói e nos posiciona em uma narrativa onde o saber é mais importante do que a força.

O confronto com a escapulomante, jovem e intuitiva, sugere um embate geracional dentro da própria magia — o saber empírico versus a intuição caótica. É também um conto sobre arrogância: a de quem acredita dominar as forças da Terra sem entendê-la. O final, apoteótico e sinistro, inverte o jogo. A necromancia vence. O guia se revela o verdadeiro feiticeiro. As “pedras” são ossos. É como se o autor dissesse: nenhuma ciência resiste ao peso do que está enterrado.

Sobre o Autor

M. P. Neves é servidor público e escreve fantasia e terror. Leu tantas histórias fantásticas que já não vive inteiramente neste mundo. É autor da trilogia A Ruína de Noltora e da coletânea ilustrada Relatos da Ruína, publicadas pela Editora Virafolha (PE). Gosta de tudo que encanta e perturba, e busca trazer esse mesmo fascínio insólito em seus livros.

Conto #3: O Algoz de Inti

Arte por Ariel Bertholdo

O terceiro e último conto, “O Algoz de Inti”, de Mateus Cantele, é o mais aventuresco — e talvez o mais pop — do trio. Mas isso não o diminui. Savannah Rogers é um protagonista canastrão que poderia sair direto de um anime steampunk latino-americano. O texto mistura pirâmides, armadilhas, serpentes mitológicas e piromancia como se fossem ingredientes de um prato que precisa ser servido rápido, quente e vibrante. E funciona. O uso da mitologia inca como eixo da narrativa é acertado e refrescante, afastando a trama dos já cansados universos celto-nórdicos da fantasia padrão. O final, em que Savannah renasce após um sacrifício pessoal, evoca bem o arquétipo da “morte simbólica do herói”, e fecha o ciclo com uma nota agridoce. Ele não alcança a aposentadoria prometida, mas reacende a chama interior. Um trocadilho? Talvez. Uma metáfora bem construída? Sem dúvida.

Savannah Rogers é o tipo de personagem que nos obriga a lembrar que a fantasia também pode ser divertida, e cheia de adrenalina. Mas o conto de Mateus Cantele não se resume a um saqueador carismático enfrentando uma serpente mitológica. Existe uma camada emocional forte ali, guardada em silêncio: a carta no bolso, a andorinha, a ideia de que todo roubo esconde uma saudade.

O uso da piromancia como dom que consome aos poucos é uma sacada brilhante: quanto mais Rogers usa seu poder, mais envelhece — e isso me pareceu uma metáfora direta sobre o preço da criação artística, do uso excessivo da própria chama interior.

A ambientação andina e a escolha mitológica fogem da obviedade e tornam o texto ainda mais potente. O herói que renasce jovem ao final, mas que já não tem tempo a perder, é a síntese perfeita do arquétipo do guerreiro condenado a sempre partir de novo.

Sobre o Autor

Mateus Cantele é escritor e professor de história. Criador compulsivo, achou na escrita o espaço que precisava para dar asas à sua criatividade. Publicou contos na Tokyo Defender, Faísca Mafagafo (@mafagaforevista), Revista Perpétua e Pulpa da Escambau Editora (@escambaueditora). Publicou seu primeiro romance, Apóstolo de Maria, em 2022, e publica a light novel SENAB – Serviço Nacional de Benzedeiros quinzenalmente no Wattpad. Adora desafiar sua escrita com ideias malucas e espera que o universo não o destrua até terminar seu próximo romance.

Conclusão

O que me chama atenção nessa antologia — e que justifica seu lugar na estante de quem se interessa por fantasia feita com alma e intenção — é a diversidade de estilos e abordagens, mas também o ponto de contato que os une: todos os contos lidam, à sua maneira, com a ancestralidade da palavra. Com o peso da linguagem como herança, maldição, conhecimento e salvação.

É possível traçar um fio que vai da Mandingueira à Cauda Draconis e desemboca no Algoz de Inti. Cada história trata de alguém tentando decifrar um enigma maior do que si. Um filho, um mago, um ladrão. Todos confrontam um passado que insiste em continuar escrevendo o presente. Todos tocam em algo proibido, seja um espelho de vidas passadas, uma torre feita de ossos ou uma lança encantada. E todos pagam um preço.

Ao final, Cantiga dos Novos Bruxos me parece um título certeiro. São mesmo novos bruxos esses autores, e suas artes são, sim, “proibidas”: por fugir da norma, por ousar o mito em outro tom, por escrever com raiva, com perda, com desejo de mundo.

Recomendo a leitura a quem quer sentir a fantasia como algo mais do que uma fuga. Aqui, ela é dívida. É mapa. E também é fogo.

Até mais, exploradores!

Publicada originalmente na Prosa & Pixel, no Substack. Ver no Substack · Assinar a Prosa & Pixel · Todas as edições