Atenção: O texto a seguir contém spoilers do livro analisado :D
A gente se aproxima da fantasia por muitos caminhos. Às vezes é o escapismo. Às vezes, a raiva. Outras vezes, um tipo de saudade que nem sabemos nomear. Mas, se tem uma coisa que me atrai na fantasia contemporânea é quando ela abandona os dragões domesticados e se aproxima do assombro — aquela sensação de que o mundo guarda algo antigo demais, perigoso demais, e que só os tolos mexem. Pois é esse o clima que me pegou em Relicário Bruxo e os Artefatos do Poder, coletânea publicada pela Perene Editorial com organização de Filipo Brazilliano, reunindo três contos que têm em comum aquilo que a boa ficção fantástica sempre oferece: um objeto mágico, sim, mas acima disso, uma escolha moral.

A capa, mais uma vez, me ganhou de imediato. Não sei se foi o gato laranja (spoiler: ele morde), a tipografia evocando um certo mistério arcaico, ou o título que remete a um lugar de memórias esquecidas: “relicário”, palavra pesada e bonita, dessas que soam como um poema por si só. O subtítulo já entrega o que está por vir: artefatos de poder. E o poder, como bem sabemos, nunca vem de graça.
O Prefácio
O prefácio de Auryo Jota é delicioso, em tom, em imagem, em construção. É menos uma introdução e mais uma imersão no próprio mundo do livro. Ele escreve como quem já está dentro da loja de relíquias, oferecendo um passeio guiado entre itens e histórias, avisando que alguns objetos mordem, outros matam, e uns poucos fazem as duas coisas. Essa abertura cria o cenário ideal para os contos que seguem: todos ambientados ao redor de artefatos raros, perigosos, muitas vezes mal compreendidos e sempre transformadores.
Aqui, Auryo acerta em algo que muita introdução de antologia fantástica falha: ele não explica os contos, ele os invoca. Com um texto que emula o ambiente de uma loja de relíquias — meio antiquário, meio armadilha —, o autor nos convida a mergulhar em cada história como quem acende uma lamparina e desce degraus rangentes em busca de algo velho demais para ser nomeado. A leitura tem o ritmo de uma conversa entre estantes empoeiradas, cheia de pistas falsas, promessas e advertências. O tom é brincalhão, mas a substância é séria: artefatos mágicos carregam memória, e cada conto da antologia será, portanto, um encontro com aquilo que escolhemos esquecer ou preservar.
O texto também serve como encantamento de abertura: ao nos apresentar as histórias de modo narrativo, quase como um mestre de cerimônias encantado, ele estabelece um elo imediato com o leitor. Ele sabe que o verdadeiro poder dos artefatos está nas histórias que os acompanham e, por isso, constrói o prefácio como se também fosse um conto. A loja, os avisos, o gato que morde (e que parece sair da capa para nos seguir com os olhos), tudo serve para inserir o leitor em um espaço liminar entre realidade e invenção. Ao final, já não estamos apenas prestes a ler três contos: estamos dentro do relicário. E como todo bom relicário, este também esconde cicatrizes.
Conto #1: A Adaga de Vidro

Se há uma palavra que define este conto, ela é: elegância. Ana Lúcia Merege escreve com o cuidado de quem compreende profundamente o valor simbólico da linguagem. A ambientação é rica em referências ao mundo antigo — Cartago, Garama, o deserto, caravanas — e, ainda assim, parece respirar com naturalidade. Nenhuma palavra é em vão. A adaga, artefato mágico que busca o coração do inimigo à distância, já é em si um conceito fascinante. Mas o que me pegou foi o modo como a narrativa trata poder e vingança: o protagonista Tarish tem todas as marcas do herói, mas não o é. Ele é herdeiro de um poder ancestral, sim, mas é também um homem tomado pelo ressentimento — e capaz de usar o ódio não só para si, mas para libertar os outros. Quando a lâmina retorna ensanguentada, não traz apenas a morte do vilão. Traz justiça para os oprimidos. E nesse gesto, o conto se aproxima mais da moral do que do mito.
Existe uma beleza amarga em como a autora constrói a figura do necromante Sarki: ele não é apenas vilão, mas a própria representação do poder estagnado, daquele que se alimenta do medo e da submissão. A virada do conto — quando Tarish usa a adaga para matá-lo — não é apenas narrativa; é simbólica. A vingança aqui não é movida por impulso, mas por estratégia. É uma vingança ancestral, cerimonial, que redefine os papéis de senhor e servo. E talvez o mais potente do conto seja a última escolha do protagonista: ele continua o caminho sem a arma em punho. Ana Lúcia não termina com a vingança, mas com a possibilidade de retorno. A mágica não corrompe o herói — ao contrário, ele a usa para libertar. E isso, em um gênero tão viciado em repetir jornadas de poder, é um gesto de renovação.
Sobre a Autora
Ana Lúcia Merege é descendente de fenícios e trabalha decifrando manuscritos na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Publica pela editora Draco uma série de fantasia épica iniciada com O Castelo das Águias. Na mesma editora, organizou as coletâneas Magos, Excalibur e Medieval. Publicou também os romances juvenis O caçador e Pão e arte, o ensaio Os contos de fadas, contos e artigos.
Conto #2: A Antiquarista

Esse conto é puro clima. Escrito com uma cadência sutilmente arqueológica, nos convida a caminhar devagar — como quem entra em uma gruta, acendendo uma lamparina a cada passo. C. S. Bells cria uma protagonista instigante: Luzia, a tal antiquarista, que parece esconder mais do que revela. O mago Carter é seu companheiro de expedição, mas a relação entre eles é marcada por desconfiança e tensão desde o início. O artefato em questão — um corisco de pedra negra, impregnado de almas — funciona como metáfora poderosa para o desejo humano de reinício. Luzia quer provocar uma nova catástrofe para, enfim, renascer o mundo. E o texto se torna, então, uma fábula sombria sobre os perigos da ambição científica, das verdades negadas, das forças do passado que nunca foram domadas. A cena final é apoteótica, quase cinematográfica. E ainda assim, termina em silêncio. Como um raio que já caiu, mas cujo estrondo ainda ecoa no escuro.
O que me impressiona nesse conto é como o poder está sempre fora de foco — ele não se manifesta em grandes gestos, mas em assombros sutis. Luzia, inicialmente, parece uma mulher obcecada por conhecimento; no fim, revela-se como uma espécie de profeta do colapso, uma sacerdotisa do caos. Carter, por outro lado, é o mago que se recusa a agir como tal, guiado mais por dúvida do que por certeza. O texto constrói uma tensão quase mística entre essas duas forças: a destrutividade visionária de Luzia e o desejo de preservação de Carter. E quando finalmente o artefato — o corisco — explode, não é apenas o fim de um confronto, mas uma alegoria daquilo que acontece quando o passado se recusa a permanecer enterrado. O feitiço, nesse conto, é também um lembrete: não há saber neutro. Toda escavação tem seu custo.
Sobre a Autora
Mineira de Belo Horizonte, C.S. Bells é escritora desde os 17 anos, mas apenas em 2021 tomou coragem para mostrar seus textos ao mundo. Arqueóloga, divide seu tempo entre fingir que é o Indiana Jones e criar novos universos para explorar.
Conto #3: Âmbar

Aqui, temos um conto que flerta com o terror urbano, a ficção fantástica e o humor sombrio. A trama gira em torno de Estefano, um homem comum, humilhado por chefes corruptos, que encontra em uma loja amaldiçoada a chance de obter sua vingança: uma pedra de âmbar que contém uma aranha ancestral capaz de controlar outras aranhas. O texto cresce a partir da tensão entre o absurdo e o trágico. Marlon escreve com sarcasmo, mas também com precisão. O lojista é uma figura interessante, saída de um conto do Gaiman, com ecos de del Toro (não por acaso, Estefano o compara ao diretor). A última cena, com as aranhas tomando conta do quarto enquanto a televisão noticia mortes bizarras, é tão visual que parece pronta para adaptação. Mas, por trás do espetáculo, há um questionamento mais amargo: quanto vale a vingança? E quantas vidas se perdem no caminho até “o que é justo”? O conto responde com silêncio e patas rastejantes.
O conto de Marlon trabalha com uma linguagem mais direta, mas nem por isso menos simbólica. O âmbar, esse fóssil resinoso que aprisiona o tempo, se torna aqui não só o receptáculo de um ser antigo, mas o catalisador de uma espiral de vingança que extrapola o humano. Estefano é um personagem trágico não por ter sido enganado, mas por ter aceitado com tanta facilidade que o ódio era tudo o que lhe restava. O poder da pedra não é simplesmente mágico — é uma metáfora para aquilo que deixamos crescer dentro de nós quando escolhemos não cicatrizar. A cena final, com as aranhas tomando o cômodo, mistura terror corporal com uma delicada ironia: não há paz para quem alimenta monstros. A vingança, mesmo bem-sucedida, exige companhia. E Estefano, agora, nunca mais estará sozinho.
Sobre o Autor
Marlon Borlachenco é um escritor independente paranaense, entusiasta do terror, horror e ficção científica. É um apreciador de bons videogames e levemente viciado em cafeína. Costuma publicar seus contos de forma gratuita na internet em várias plataformas e em suas redes sociais.
Conclusão
Relicário Bruxo é mais do que uma coletânea de contos mágicos. É um tratado breve sobre o que fazemos com o poder quando o encontramos ou quando ele nos encontra. Cada história é guiada por um artefato, sim, mas o verdadeiro motor está nas intenções humanas.
Nenhum objeto tem magia suficiente para resistir ao desejo de quem o segura. E talvez seja justamente aí que mora o perigo. Não é o poder que corrompe — somos nós que já estávamos rachados quando o encontramos.
Para quem acompanha fantasia nacional e deseja ver trabalhos sólidos, bem escritos, com vozes diferentes e inventivas, essa antologia merece ser lida. Para quem escreve, ela é também um lembrete importante: toda boa história é um artefato. Toda narrativa carrega em si o risco de transformação. E o leitor, como o comprador da loja do conto de Marlon, precisa sempre se perguntar: estou pronto para o preço?
Até mais, exploradores!
Publicada originalmente na Prosa & Pixel, no Substack. Ver no Substack · Assinar a Prosa & Pixel · Todas as edições