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Prosa & Pixel24 de julho de 20258 min de leitura

Amor, em Várias Dimensões

Quando os personagens falam o que não conseguimos dizer.

O amor como linguagem secreta da ficção

Algumas pessoas encontram o amor na realidade. Eu o encontrei primeiro na ficção.

É difícil lembrar qual foi o primeiro livro que li, também não lembro muito sobre os primeiros quadrinhos, apesar de lembrar bastante dos primeiros jogos. O que me diverte tentando lembrar dessas coisas é justamente encontrar aquelas que mais me marcaram. Lembro do primeiro romance, do primeiro medo, da primeira vez que senti raiva lendo, jogando, revendo páginas.

Um dos amores mais intensos que já vi em um livro eu li nos diálogos tímidos entre dois personagens que nunca disseram “eu te amo” um para o outro, mas tudo neles gritava isso.

No mundo dos jogos eu experimentei o amor num jogo onde precisei escolher entre o mundo e uma única pessoa. Vocês conseguem imaginar o tamanho de tal decisão? Como se resolve algo assim? Eu consigo, vivi aquilo, por mais fantasioso que seja. Eu escolhi ela.

Já nos quadrinhos o amor é sempre mais corajoso, é onde dois heróis, um com capa e um sem, se encontram e se definem, entre explosões e viagens no tempo. Engraçado como eles ainda arrumavam tempo pra se olharem como se fossem o lar um do outro.

Cresci acreditando que o amor era uma jornada. Hoje, acho que ele é também linguagem. Uma que se escreve nos pequenos gestos, nas entrelinhas, nas decisões silenciosas.

Vamos falar um pouco mais sobre isso.

Amor nos jogos:

Life is Strange

Uma amiga indicou esse jogo 5 anos antes de eu jogar, eu me neguei por muito tempo pois não via graça em um jogo sobre narrativa e decisões, hoje em dia eu trabalho com isso. A vida surpreende a gente a cada virada de esquina, essa foi uma virada intensa. Life is Strange me mostrou de diversas formas o quanto a vida pode ser estranha se você amar demais ou se você amar de menos, mas mais do que isso, me mostrou a importância das minhas escolhas.

Cena de Life Is Strange, arte assinada, fonte Pinterest

Max e Chloe não são um casal no sentido tradicional. Elas são mais que isso: são possibilidade. São o “e se” que transforma a amizade em amor, e o amor em destino. A mecânica de voltar no tempo em Life is Strange é uma metáfora perfeita para o que sentimos quando amamos: a vontade de consertar o que deu errado, de refazer palavras, de evitar a dor.

Mas há um momento em que Max não pode mais fugir do peso de escolher — e o amor se revela não como fuga, mas como coragem.

Amar é escolher, mesmo quando o mundo não entende sua decisão. E há belezas que só florescem na borda do impossível.

Final Fantasy VII

Todo mundo que gosta de RPG tem aquele preferido, e é bem comum que seu RPG preferido esteja em uma franquia como Final Fantasy ou Dragon Quest, o meu é Final Fantasy VII. Sem dúvidas foi aqui que senti, pela primeira vez, a dor de perder aquela personagem querida, aquela que ajudava em tudo, guiava e sonhava junto.

Quando conhecemos Aerith é difícil não entrar na essência da personagem e, em todas as suas ações, perceber a pureza, a bondade, os pequenos detalhes que fazem dela quem ela é. A vida toda eu busquei encontrar essa simplicidade e beleza em alguém, mas foi aqui que conheci, foi aqui que a ideia de que alguém assim poderia existir surgiu. Hoje em dia eu chamo alguém assim de noiva.

Arte de uma cena do jogo Final Fantasy VII, por Diogo Senna (Pinterest)

Aerith e Cloud compartilham um tempo curto, mas intenso. É um amor que continua moldando ações, mesmo após o fim.

Às vezes o amor que marca é o breve. Outras vezes, é o que fica. E o coração é grande o suficiente para guardar os dois.

Amor nos livros:

O Nome do Vento & O Temor do Sábio – Patrick Rothfuss

Ao longo de dois livros, Patrick Rothfuss elevou, para mim, a régua do que é uma boa escrita de mundo fantástico, ele define regras, histórias, mitologias e magias, mas em meio a tudo isso tem uma outra coisa acontecendo, é um romance, mais silencioso que o silêncio em três partes que sempre dá inicio aos livros. O amor entre Denna e Kvothe gera raiva em alguns, compreensão em outros e emoção em mim, é impossível não torcer por eles, e é muito doloroso quando eles se encontram e as coisas não são como a gente espera.

Kvothe e Denna, cena do livro, arte oficial por Dan dos Santos

A realidade que Kvothe nos conta é dura, fria, e nunca é do jeito que sonhamos, é sempre uma luta intensa para manter o que se tem e lutar pelo que não possui. Kvothe me ensinou que não devemos demonstrar dor, e que o amor está além das palavras não ditas, está muito além dos gestos inacabados ou interrompidos. Esse é o amor que não termina.

Kvothe e Denna são uma dança inacabada. Um se aproxima, o outro recua. Nenhum deles sabe ao certo como amar, mas mesmo assim tentam — com música, poesia, silêncios. É um amor que se constrói nos espaços vazios. Ela some, ele espera. Ele finge, ela entende. E tudo isso cria uma narrativa de afetos que não precisam se resolver para serem reais.

Algumas histórias de amor não terminam. Elas ecoam. E há amores que ensinam mais no não dito do que mil declarações.

Os Dois Morrem no Final – Adam Silvera

Esse livro é aquele tipo de livro que muita gente vê no Tik Tok e anota para nunca comprar ou ler, pensando ser mais um romance adolescente sem sentido e com fundo falso para criar a ilusão de importância. A realidade é que ele não só é um bom livro como apresenta ideias que me fazem refletir até hoje, sinto inveja do Adam ao perceber que não tive essa ideia antes dele. Aqui o romance nasce como uma dúvida e se desenvolve como uma chuva que começa no sereno e termina na tempestade. Aqui, o final não é feliz, e o título já diz isso.

Arte de Capa de “Os Dois Morrem no Final”.

Mateo e Rufus descobrem que vão morrer nas próximas 24 horas. E decidem passar esse último dia juntos. O que nasce entre eles não é apenas um romance. É um amor que reconhece a urgência da vida, a delicadeza do instante. É o amor que diz “sim” mesmo sabendo que amanhã não existe.

Amar, às vezes, é aceitar que tudo será breve — e mesmo assim mergulhar de cabeça. Porque um dia bem vivido pode valer mais que uma vida inteira morna.

Amor nos quadrinhos:

Superman e Lois Lane

Eu só percebi o quanto esse romance era interessante quando não o vi acontecer, na verdade, quando o vi impedido de acontecer. Nos quadrinhos/jogo Injustice, Superman perde a Lois em um ataque surpresa do Coringa, isso o enlouquece, e foi assim que eu entendi onde aquele “deus” se equilibrava. É interessante ver onde personagens chegam quando perdem aquilo que é o mais importante. Superman sem Lois Lane é ditador, genocida, cruel… isso é assustador.

Clark Kent é invulnerável. Exceto quando olha para Lois.

Superman e Lois Lane, arte de Jorge Jimenez

A beleza desse casal está justamente no equilíbrio entre o mito e o humano. Ele é um deus entre mortais. Ela é uma jornalista com faro para a verdade — inclusive a verdade dos sentimentos. Eles são parceiros. Completam um ao outro sem anular.

E mesmo quando o mundo desaba, mesmo quando Clark precisa levantar o planeta nos ombros, ele sempre volta para ela.

O verdadeiro superpoder é amar alguém e ser amado de volta sem precisar esconder quem você é. Lois é a âncora que impede Clark de se perder no céu.

Peter Parker e Gwen Stacy

Quem conheceu esse romance apenas por sua tragédia pode não perceber o quanto Peter e Gwen foram, por um tempo, a própria definição de esperança. Antes da dor, houve riso. Antes da perda, houve promessas. Gwen não era apenas o interesse amoroso de Peter — ela era o respiro em meio ao caos, a inteligência que o desafiava, a gentileza que o lembrava de quem ele era sob a máscara.

Peter é responsabilidade. Gwen, leveza. E juntos, eles equilibravam o fardo do herói com a doçura do humano.

Peter Parker/Homem-Aranha e Gwen Stacy

A ausência dela ecoa tanto quanto sua presença um dia brilhou. Porque Gwen não foi só um capítulo trágico, ela foi o coração de uma era. E mesmo com tantas histórias recontadas, ela permanece como aquela que Peter nunca esqueceu. Porque antes de Mary Jane dizer “Pega eles, tigrão…”, Gwen já tinha mostrado a ele que o amor podia ser calmo, real, possível.

Às vezes o amor não precisa durar para ser eterno. E alguns nomes, quando ditos em silêncio, ainda fazem o mundo parar por um segundo.

O ponto de encontro entre mundos

Jogos me ensinaram que o amor é escolha. Livros, que ele pode ser silêncio e ainda assim gritar. Quadrinhos, que mesmo no meio do caos, há espaço para constância, afeto e reencontros. E se a gente parar pra pensar, todas essas histórias só funcionam porque, no fundo, queremos acreditar nisso:

Que o amor existe. Que ele transforma. Que ele pode ser nosso — mesmo que só por um capítulo.

A ficção nos prepara para a vida não porque ela é igual à realidade, mas porque ela nos mostra o que buscar:

A coragem de amar.

A beleza de ser vulnerável.

A esperança de que sempre, em alguma esquina narrativa, há alguém esperando por nós.

E que, como dizem nos livros e nos jogos, às vezes é o amor que salva o mundo. Outras vezes, é só ele que nos salva de nós mesmos.

Para refletirmos juntos:

  • Qual foi a história de amor fictícia que mais te marcou?

  • Você já se sentiu representado(a) por um casal de um jogo, HQ ou livro?

  • Existe alguma narrativa que te deu força para amar de novo?

Até mais, Exploradores.

Publicada originalmente na Prosa & Pixel, no Substack. Ver no Substack · Assinar a Prosa & Pixel · Todas as edições