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Prosa & Pixel28 de novembro de 202414 min de leitura

Arcane, Runeterra e Minha Visão

Uma conversa sobre o fenômeno Arcane e o futuro desse universo

Quando eu tinha 13 anos, dois amigos me chamaram para ir em uma lan-house, a ideia era me apresentar um jogo que tinha virado uma febre, não só naquela lan-house, mas por toda a internet. League of Legends (dá pra chamar esses caras de amigos? eis a questão haha).

Quando conheci League of Legends, aquele jogo me convenceu de que era possível se construir jogos estratégicos sem a necessidade de um tabuleiro, e isso me impressionou, de certa forma, o campo de guerra do jogo “Summoner’s Rift”, ainda é um tabuleiro, mas por ele, você move suas peças a vontade, e cada passo é muito importante. Cada decisão pode estar separando você da vitória ou da derrota.

Mas, como todo bom leitor e entusiasta da escrita, ainda naquele ano, o que mais me chamou a atenção foi o fato de termos tantos bons personagens com histórias únicas, que de vez em quando se conectavam, se encontravam, mas na maioria das vezes não precisavam andar lado a lado, e ainda assim permaneciam boas. De repente, conversando com um dos amigos que me apresentou o jogo, eu disse “Quero conhecer todas as histórias desse mundo”, as famosas lores de League of Legends.

Mapa de Runeterra, explorável, no site oficial de League of Legends

Existem duas formas bem conhecidas de se construir bons personagens, e as duas são válidas. A primeira é criar um mundo para eles, e depois preencher esse mundo com as suas personalidades, a segunda forma é criar personagens primeiro, e depois definir o mundo aos seus redores, com base em suas experiências e personalidades. A Riot, criadora de League of Legends, criou personagens dessas duas formas, em diferentes momentos do tempo, e claro, todos possuem um charme a parte, todos possuem um rosto, uma história, uma personalidade e um conteúdo único.

Isso é de causar inveja, mas lembrem-se, são mais de 10 anos desenvolvendo, descontruindo e reconstruindo esse universo. Nem mesmo a Riot acertou de primeira, de segunda ou de terceira, e somente agora estamos vendo o nascer da coerência desse vasto mundo de Runeterra.

Isso é mais que um exemplo, é uma lição.

O meu primeiro campeão

O primeiro campeão de League of Legends por quem eu de fato simpatizei se chama Varus. Um arqueiro sombrio de quem eu sabia pouquíssimo, até procurar mais sobre sua história, e curiosamente é uma história romântica, quem diria. Varus é aquele tipo de personagem que te ganha primeiro na aparência, depois que você é pego por essa capa, a busca pelo conteúdo é quase inevitável, e muitos outros personagens desse mundo seguem essa formula. Jinx, Vi e Viktor não foram os primeiros.

Varus, A Flecha da Vingança

A história de Varus me deu ideias a mil, ideias que levei, de forma consciente ou não, para personagens que eu viria a criar anos depois, e aqui está o vídeo de lore dele. Você também pode ler mais sobre ele aqui.

Nesse vídeo somos apresentados a uma região que Arcane ainda não nos apresentou, mas isso é papo para alguns tópicos a frente. O que importa aqui é ver como a construção desse personagem, apesar de simples, é interessante, desde a ideia do romance, até a concepção dos seus poderes. Tudo parece possuir uma conexão tão natural que é como se esse personagem fosse apenas uma criação desse mundo. Ele surge de um “e se” que se concretiza e nos mostra sua face, e cada pequeno detalhe dessa criação ecoa por toda a Runeterra, com conexões que vão além dessa região.

Isso é criatividade na prática.

Arcane e a magia da reconstrução

Agora vamos falar dessa obra prima do mundo das animações, a animação em série mais cara da história e sem dúvidas, uma das melhores já feitas. Arcane nasce com uma proposta interessante: recontar a história de duas regiões conectadas de Runeterra, Piltover e Zaun, e tudo isso deve ser contado através dos olhos de personagens que, a princípio, ainda não são os campeões de League of Legends que conhecemos, mas vão se tornar, e desde o primeiro episódio, sabemos disso.

(A partir daqui, por sua conta e risco, possivelmente abordarei spoilers da primeira e segunda temporada de Arcane).

No começo, quando a primeira temporada saiu, a gigantesca e positiva recepção de Arcane assustou os desenvolvedores, que até aquele momento, não planejavam incluir Arcane como cânone na linha temporal, principal, e histórica de Runeterra, decisão que logo foi alterada. E agora sabemos que tudo o que acontece ali afeta os jogos ligados a Runeterra, e define eventos, skins, lores e até novos personagens.

Porém, apesar dos personagens maravilhosos que Arcane desenvolve ao longo de suas duas temporadas divididas, cada uma, em 3 atos, eles não são, nem de longe a ponta do iceberg que é esse mundo. Aqui, na série, temos duas regiões, de um mundo com pelo menos 11. Cada região com tantos personagens e histórias interessantes e importantes que chega a ser uma verdadeira explosão mental tentar visualizar tudo isso em um panorama aberto, e claro, eu já tentei fazer um panorama assim.

Por enquanto, vamos falar sobre alguns personagens de Arcane que movimentam a narrativa a cada decisão, vamos falar dos que mais se destacaram ao longo das temporadas e que no fim deram abertura para uma série de cenas icônicas.

Ekko

Esse é sem dúvidas meu personagem favorito. Ekko nunca foi um personagem com o qual eu jogasse muito em League of Legends, mas é inegável que o garoto possui estilo, propósito e muitas habilidades interessantes. A construção de Ekko em Arcane é um exemplo básico e bem aplicado da jornada do herói entrelinhas, você consegue ver ali aspectos da sua infância, que definem parte da sua personalidade, a vida adulta rebelde, mas, não se distanciando dos seus propósitos iniciais, mesmo assim lutando por algo, defendendo seu povo, o encontro com um mestre (Heimerdinger), e, com pouco tempo de tela, ele se torna aquele herói que todos nós esperamos que vá aparecer para resolver tudo.

Poster com Ekko, para a segunda temporada de Arcane

Ekko é um herói, isso é inegável, e sua construção até esse aspecto de sua personalidade é sutil, natural, ele quer ajudar o seu povo, ele quer salvar Zaun da escuridão que todos enxergam nela, quer fazer com que a periferia seja mais do que os outros pensam que é. E quando ele finalmente se mostra um gênio, convencendo seu mestre disso, Ekko consegue não só construir um caminho até seu heroísmo, como encontrar e ver coisas que só ele encontrou e viu.

Vocês pararam para pensar que dos três personagens que viram outras realidades, e sabem da possibilidade disso (Heimerdinger, Jayce e Ekko), somente o Ekko restou de pé? Isso não foi por acaso, eu te garanto. Aquele herói ainda vai brilhar em histórias futuras. Não podemos esquecer também que ele foi um dos personagens que não teve prêmios pelos seus esforços infinitos, não teve vitória para Ekko no fim das contas, ele perdeu muito para ser uma pessoa plenamente feliz. Eu adoro esse detalhe na construção de bons heróis.

Viktor

Sem dúvidas, a maior surpresa de Arcane está em colocar Viktor como um de seus protagonistas, todos conhecem os grandes nomes de Piltover e Zaun, e, pelo menos na minha visão, Viktor nunca era visto como alguém que ia além de um maluco tecnocrático. Era até complicado imaginar o rosto por trás daquela máscara esquisita. Mas, aqui, em Arcane, Viktor é um pilar central da trama, importante para toda a narrativa. Arriscaria dizer que sem Viktor, não existe Arcane.

Splash Art Oficial de Viktor, em sua nova Skin no jogo

O que mais gosto na construção desse personagem é a coerência de seus atos, Viktor não desvia nunca de seus propósitos, que na primeira temporada pareciam quase adormecidos, contidos até. Na segunda temporada de Arcane conseguimos ver viktor em seu auge, toda a ideia de um maníaco tecnocrático é desconstruída para a construção de uma pessoa magoada, quebrada, e que sonha em consertar o mundo, levando todos até uma “gloriosa evolução”. Quando na verdade é bem mais sobre ele mesmo, do que sobre o mundo. Viktor é um exemplo de como ainda podemos usar a fórmula do “messias”, (apresentada pelo genial Frank Herbert em Duna, e depois copiada por George Lucas em Star Wars (com Anakin/Darth Vader)) sem os grandes clichês.

Splash Art Oficial de Viktor, em sua nova skin padrão

Ele foi “messias” para Zaun, mas isso não o define por completo, ele é uma peça, em um quebra cabeça, que conseguiria guiar todo aquele universo por um caminho diferente do que foi, e mesmo assim, teve seus impactos contidos, pelo menos por enquanto. Viktor seria, agora, em Arcane, o equivalente a um falso santo.

Um ponto na história de Runeterra que não pode ser esquecido.

Singed

Esse nome não foi usado em Arcane, até onde me lembro, o nome escolhido foi Dr. Corin Reveck, famoso nas lores de League of Legends por ser o pai de uma outra personagem interessante, Orianna. Era uma teoria antiga essa de que o Singed da série poderia ser uma mistura desses dois personagens, e ela foi confirmada.

Muita gente criticou esse personagem por ter sido um “vilão” que se deu “bem” no fim das contas. E eu tenho uma visão bem diferente, apesar de todas as atrocidades de Singed, ele não é um vilão. Pensa comigo, Singed transformou Vander, um dos maiores simbolos de Zaun, em uma fera capaz de defender seu povo, ou pelo menos assim ele pensou que seria. E manteve, de forma constante, estudos sobre a vida, sobre a cintila, e sobre tudo que pudesse acordar sua filha da própria morte. Singed não é um vilão, ele é apenas humano. Ele é aquele cara que faz tudo o que tiver que ser feito para chegar onde quer chegar, ele não é a maldade em pessoa, ele comete atos ruins para chegar em soluções boas, boas para quem? Para ele. Acho que ser um vilão tá bem além disso.

Splash Art Oficial de Singed, em sua nova skin, em League of Legends

Diria, que o vilão de Arcane não foi um ou outro personagem, o vilão de Arcane foi o que da nome a série, o Arcano. Foi o Arcano, enquanto aspecto da magia revivida na Hextec que fez com que tudo em Arcane fosse como é. E sabe qual a maior prova disso? Quando Ekko visita uma realidade na qual o Arcano nunca foi revivido através da tecnologia. Aquele mundo… Vocês sabem.

Jinx

Essa personagem foi, provavelmente, a que mais se beneficiou de Arcane. Deixando para trás o estereótipo de “garota maluquinha” construído em parte por Arlequina nos últimos anos, e ganhando uma profundidade imensa. Toda cena com a Jinx, em Arcane, tem boas músicas, boas falas e uma direção de arte impecável, o carinho que tiveram com essa maluca é incrível. E claro, é uma das personagens mais queridas de Runeterra nesse exato momento, ocupando o lugar de uma outra que prefiro nem mencionar, mas que a Riot lança skin todo mês.

Jinx/Powder é uma personagem extremamente complexa, na minha visão, não só pelos seus aspectos psicológicos, mas pela construção de sua trama geral, desde a infância até o Silco, passando pela irmã, pelas péssimas escolhas e principalmente pela loucura que ela enfrenta. Jinx é aquela personagem que tá sempre em uma luta interna, por vezes lembra Smeagol em Senhor dos Anéis, e outras vezes lembra alguém com depressão que conheci anos atrás e com quem não tenho mais contato.

Jinx, em Arcane

A construção dos arcos de Jinx e Powder, é toda feita com lançamentos de dados, digo isso por que fica óbvio, ao vermos a outra realidade, mencionada antes, que o destino de Powder poderia ter sido muito diferente, bem melhor. Quando falo nesse aspecto “Laçamento de dados” estou me referindo a um movimento em mesa de RPG, quando o mestre lhe pergunta “o que você faz” e você lança os dados após tomar sua decisão, a decisão então, de acordo com os dados, ecoa no mundo de forma positiva ou negativa. Jinx, sem dúvidas, teve um dado crítico quando lançou um mega míssil mortal em direção ao conselho de Piltover, mas é difícil dizer se o crítico foi positivo ou negativo. E isso se repete em diversos outros momentos.

O futuro de Arcane

Em uma entrevista na Twitch, um dos criadores de Arcane fez algumas revelações, vocês podem conferir um pouco sobre elas aqui. Eu irei focar, em especial, no futuro de Arcane, desse universo que começa na série e agora se prepara para se expandir.

Na entrevista, quando perguntado sobre o futuro de Arcane, é revelado que o trabalho já começou, e faz pelo menos 1 ano e meio que a próxima série está em desenvolvimento. Não só isso, é revelado também que três das 11 regiões de Runeterra serão as próximas a serem exploradas, não fica claro que haverá uma série para cada uma dessas três novas, mas especula-se que sim. Mas, quais são essas três novas regiões?

Noxus, Ionia e Demacia

Noxus é sem dúvidas a próxima região a ser explorada por Arcane, a região esteve pairando ali sobre Piltover e Zaun desde a primeira temporada, com Mel Medarda e Ambessa Medarda sendo os rostos de Noxus até agora, mas acredite, não tocamos nem o primeiro fio de cabelo de Noxus ainda. Essa é uma das, se não a, maior região de Runeterra, por serem um império expansionista extremamente militarizado, Noxus possui um longo histórico de invasões, guerras e pactos com criaturas esquisitas.

Espero que a forma como Arcane conseguiu mostrar a realidade por trás da fantasia que é Piltover e Zaun, se aplique também a Noxus, porém, sem esconder as atrocidades e feitos macabros dessa sociedade. Se eu fosse comparar Noxus com outras nações dos mundos de fantasia, somente acharia um equivalente em algum momento da história da Horda, uma das grandes facções de World of Warcraft, outro jogo.

Darius, Líder militar de Noxus, diante dos seus exércitos

Gosto de imaginar que veremos personagens icônicos como Swain, Draven, Darius e Katarina, mas temo pelo que farão na desconstrução desses personagens, eles são bem queridos, e… sanguinários, não quero uma versão leve deles, quero ver eles em sua plenitude, mesmo que construídos de uma forma mais humana e moral. Você pode ler mais sobre Noxus aqui.

A segunda região citada foi Ionia, essa é, sem dúvidas, a minha região favorita em toda a Runeterra, então, estou bem ansioso para ver como vão adaptar toda a magia dessa área. Ionia é um grande arquipélago, muitas vezes referenciado como as Primeiras Terras. Aqui, todos buscam um equilíbrio entre todas as coisas, e a magia natural faz parte desse equilíbrio.

Yasuo, um dos campeões de Ionia

Não falarei muito sobre Ionia, para não estragar possíveis surpresas futuras, Noxus e Ionia estão profundamente conectadas enquanto regiões. E isso será importante nesse universo. Você pode ler mais sobre Ionia aqui.

A terceira região se chama Demacia. E, apesar de possuir personagens bem famosos, diria que tem sido uma região bem esquecida, pensei que veríamos algo de Demacia nessa temporada final de Arcane. Não só pelo seu papel político e social no mundo, mas também pela sua postura “anti-noxus” eu diria.

Lux, campeã de Demacia, observa seu reino ao fundo (Imagem ofical de Legends of Runeterra, outro jogo nesse universo)

Demacia é uma monarquia militarizada com um foco altíssimo na caça aos magos, e que luta, dia e noite, contra a magia em si. Eles são a principal nação de Runeterra a combater o “Arcano” enquanto aspecto mágico do mundo. E lá, a magia é proibida.

Como você consegue ver um reino assim em uma Runeterra que acabou de redescobrir a magia através da tecnologia hextec? Eu quero ver isso.

Demacia possui uma longa história com Noxus, com a magia e principalmente com a sua linhagem real. Ainda preciso ver como Demacia vai se encaixar nesse panorama geral que Arcane começou a formar. Você pode ler mais sobre Demacia aqui.

Indicações de livros

O universo de League of Legends possui muito conteúdo já criado, desde o site (Cujo o link espalhei em alguns pontos dessa newsletter), até quadrinhos e livros. Hoje eu vou indicar dois livros, e deixarei aqui suas sinopses.

PS: Estou lendo os dois haha

RUINATION: UMA HISTÓRIA DE LEAGUE OF LEGENDS

Sinopse: Camavor é uma terra brutal com um legado sangrento. Para onde os caveleiros do império vão, a matança vai atrás. E Kalista deseja mudar essa história. Quando seu jovem e narcisista tio, Viego, se torna o rei, ela jura que irá controlar seus instintos destrutivos, como sua leal confidentes, conselheira e general militar. Mas seus planos são frustrados no momento em que a lâmina envenenada de um assassino atinge Isolde, a esposa de Viego, contaminando-a com uma doença para qual não há cura.

À medida que a condição de Isolde piora, Viego se afunda a cada dia mais num abismo de insanidade e dor, e ameaça arrastar toda Camavor com ele. Kalista arrisca uma jogada desesperada para salvar o reino: vai em busca das Ilhas das Bençãos há muito tempo perdidas, pois dizem que contém a salvação da rainha, se Kalista conseguir encontrá-las.

No entanto, a corrupção cresce na capital das Ilhas das Bençãos, onde um vingativo guarda procura envolver Kalista em suas maquinações cruéis. Ela será forçada a escolher entre a lealdade a Viego e fazer o que sabe que é certo ― pois, mesmo diante da completa escuridão, um ato nobre pode fazer brilhar a luz que salvará o mundo.

O primeiro livro passado no universo blockbuster de League of Legends, um dos jogos mais populares de todos os tempos, Ruination é um conto épico de magia, vingança e um reino prestes a ruir.

GAREN: PRIMEIRO ESCUDO

Sinopse: O rei está morto, Demacia está de luto e Garen Stemmaguarda se culpa pelo ocorrido.

Ele conseguirá enfrentar o desafio quando seu reino precisar de ajuda novamente?

Durante uma expedição pacífica além das fronteiras de Demacia, Garen, Quinn e a Vanguarda Destemida descobrem uma conspiração que ameaça destruir alianças de longa data. Enquanto a cavaleira-patrulheira Quinn tenta levar informações para Demacia, Garen e seus companheiros empreendem uma resistência desesperada. Por quanto tempo conseguirão resistir – e a que custo?

Queria conseguir uma parceria com a Amazon pra ganhar comissão hahaha

Quem sabe um dia.

Por hoje é isso, até mais, exploradores!

Publicada originalmente na Prosa & Pixel, no Substack. Ver no Substack · Assinar a Prosa & Pixel · Todas as edições