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Prosa & Pixel10 de abril de 202512 min de leitura

Escrevendo Quadrinhos

Uma conversa sobre criar histórias em quadrinhos

Quando eu tinha 14 anos, me juntei a um colega de escola e tentamos fazer quadrinhos, naquela época eu acreditava que ter o material certo era o verdadeiro segredo dessa arte. Eu estava errado. Não existia uma grande diferença entre ter um caderno ou um notebook para escrever os roteiros, desde que o desenhista conseguisse entender e desenhar. Também não havia uma gigantesca diferença entre o desenhista, no caso, meu amigo, usar canetas profissionais ou amadoras, nem mesmo o bico de pena (que eu jurava que era algo incrível para o desenho) conseguiu fazer a gente lançar um quadrinho.

Lançar um quadrinho se tornou, com o tempo, um sonho bem distante, de repente o meu amigo nem queria mais desenhar, e eu só queria escrever aquilo que pudesse ser publicado, no Wattpad, no Spirit e até no Nyah Fanfiction. A ideia de ter meu próprio quadrinho foi morrendo aos poucos.

Mas, afinal, ideias morrem?

Aprendendo a escrever quadrinhos

Quando você tem 14 anos e sonha em fazer quadrinhos, o formato do roteiro pouco importa, a forma como o roteiro se organiza não tem tanto valor quanto o desenhista, ali com você, entender o que você quer dizer, e assim transformar em desenho. Eu fui assim por um tempo, até eu me perguntar “ei, como são escritos os quadrinhos da Marvel e DC?” e então, minha curiosidade me levou por alguns becos na internet.

Poucos PDFs depois, eu já me sentia preparado para reinventar os quadrinhos, e trazer a tona uma nova forma de escrever eles, mal sabia eu que a forma como eu estava pensando em escrever era a mesma que muitos outros escritores já haviam pensado antes. E falharam. Outros, conseguiram, mas foi preciso bem mais do que formatação de roteiro, foi preciso mais do que sorte, contatos, dinheiro, amigos… é, fazer quadrinhos não é só sentar a bunda na cadeira e escolher o que criar. Eu sei bem disso.

Meu processo de aprendizagem foi da leitura de PDFs, para livros que encontrei em sebos, livrarias e posteriormente na internet, fiz um ou dois cursos, que não foram lá tão reveladores, e fiz exercícios que ninguém me passou, mas eu pensei “esse será um ótimo exercício”. Em alguma postagem anterior a essa, falei um pouco sobre esse processo, indiquei materiais de estudo, não vou me repetir aqui, mas de fato, um livro que mudou a minha forma de escrever quadrinhos foi o Escrevendo Para Quadrinhos, do famoso Brian Michael Bendis.

Ah, e só para que você não saia daqui sem ter o que fazer, o exercício que melhor desenvolveu em mim a escrita de quadrinhos não está nesse livro que citei. O exercício é bem simples:

Abra o seu quadrinho preferido, abra um caderno (eu sempre funciono melhor com cadernos), agora faça o processo inverso de criação do quadrinho. Escreva o roteiro quadro a quadro, olhando para eles, lendo eles. Descreva as cenas, anote os balões, as caixas de texto, tudo.

Depois, com o roteiro que você fez e a arte do lado, compare. E aí, seu texto é o suficiente para visualizar toda aquela arte, caso ela não existisse? Se sim, BOM TRABALHO!

Trabalhando com quadrinhos

Meus estudos não me levaram a trabalho algum, afinal, eram estudos solitários, sem tanta aplicação prática, mas quando eu tive a oportunidade, deixei claro para qualquer um que aparecesse: Eu sei escrever quadrinhos. Eu sabia? Talvez. Se tentasse, eu descobriria, afinal, nem todo o estudo do mundo te prepara para o mercado de trabalho, em especial o mercado de quadrinhos.

Meu primeiro emprego com quadrinhos foi no exterior, tive essa sorte, ou azar, a depender do ponto de vista. Escrevi mais de 100 roteiros para uma empresa do Texas que estava começando no mundo dos quadrinhos, a ideia era concorrer com a famosa e gigantesca Webtoon. a maioria dos roteiros que fiz foram produzidos, pois além de escritor eu também coordenava um time de cinco artistas. Pensando bem, acho que os meus superiores não viam a escrita como o trabalho real da função, por isso eu também era gerente de time, isso é quase cruel, mas eu recebia bem.

Essa história não terminou bem, o projeto foi pausado, depois encerrado, pois o investimento estava sendo muito alto para um retorno lento e muito incerto. todo mundo foi demitido e aqueles quadrinhos nunca viram a luz do dia. Sabe, é bem triste quando você trabalha em algo que nunca vê a luz do dia, é quase como sentir que você perdeu tempo. Muito tempo. E, de repente, desemprego. É desesperador no momento inicial, e depressivo depois disso, meu time, os artistas, contavam comigo, eles achavam que eu ia encontrar uma solução para essa “crise”, mas não era uma crise, era o fim do sonho de “trabalhar com quadrinhos”.

E foi, por um tempo, difícil. Eu enfrentei uma crise pessoal enorme, duvidei de mim mesmo, e terminei por deletar muita coisa que nunca foi vista, roteiros e mais roteiros. Porém, um dia, acordei com um e-mail, parecia coisa de filme, algum “maluco” tinha me encontrado no Fiverr, a plataforma de serviços de freelancer.

Esse foi o e-mail que mudou tudo.

Andrej Biasic e seus quadrinhos

Imagine que, desempregado, você vai dormir sem a perspectiva de como pagar o aluguel no fim do mês, e então, do nada, alguém chega em você e diz: “Oi, eu sou Andrej Biasic, e preciso criar um multiverso de grupos de super-heróis, topa ser meu roteirista?”. No primeiro momento eu pensei “Ah, por que não?” e depois “ué? Quem nesse mundo se chama Andrej Biasic?” Isso tudo foi seguido de dúvidas sobre meu potencial como roteirista, e principalmente de medo, medo de não ser o suficiente de estar, mais uma vez, entrando em uma espiral de trabalho incansável e resultados mínimos.

Descobri aos poucos que Andrej era o pseudônimo de um cara bem legal, um cara que tinha mais sonhos que eu, pois o tempo lhe deu isso, e claro, ele queria realizar esses sonhos. Eu poderia ajudar, criticar ou simplesmente fazer o meu e pular fora desse barco. Eu escolhi ficar, ficar e dar o meu melhor. E foi o que fiz. Junto ao Andrej eu escrevi mais de 120 roteiros de quadrinhos (se não me perdi na conta) ao longo de mais de um ano e meio, até agora, e finalmente estamos colhendo alguns frutos disso. Claro, frutos nem sempre são financeiros, como dessa vez, mas chegaremos lá.

Hoje, eu vim aqui, mostrar pra vocês algumas das histórias que fiz junto ao Andrej. Primeiro vamos ver as capas, depois algumas páginas e seus respectivos roteiros, e por fim, um pedido. Vamos lá. Eu tenho um universo de ideias para mostrar para vocês, boas ideias.

Terra Valente Apresenta

Arte de capa de Centúria #1, por Pedro Lucas.

Essa foi a primeira história que Andrej pediu que eu lesse, nunca vou esquecer do quanto eu achei a ideia incrível. Um super-herói brasileiro com uma origem tão intrigante, precisava de um roteiro tão bom quanto, e eu fiz isso. Sinopse abaixo.

Surge o Superluminoso: "Surge o Superluminoso" acompanha Alexandre, militar da Força Aérea Brasileira, enviado para investigar avistamentos de óvnis em sua cidade natal, Colares. Durante a misteriosa Operação Prato, seu reencontro com a pequena cidade desencadeia eventos que transcendem a compreensão humana. Em meio a segredos extraterrestres, Alexandre se torna o catalisador de uma nova era de heróis e vilões, marcando o início da Centúria e inaugurando uma narrativa épica que redefinirá o destino do povo brasileiro.

Se você não ficou interessado por isso, eu não sei o que pode te interessar. Vamos ver uma página desse quadrinho e depois seu roteiro, assim você, que tem interesse em escrever quadrinhos, pode comparar e usar isso como material de estudo. Vai, eu deixo.

Página 03 de Centúria #1, roteiro meu, David Stéfano. Arte de Luiz Sansone e letras por Narciso Rosário.
Roteiro de Centúria #1. Página 03.

Observe que meu roteiro não é seguido fielmente, e isso é normal no mundo dos quadrinhos, afinal, o que está na arte segue fielmente a ideia, a mensagem, tudo é entendido e a arte sequencial conta a história dessa página. Note também minha formatação, as descrições breves e claro, repare em erros que cometo com certa frequência ao detalhar demais ou dar muito movimento a um único quadro, isso também faz parte do meu estilo falho, que foi se corrigindo com o tempo. Esse roteiro foi escrito em Dezembro de 2023, muita coisa mudou na minha escrita desde então.

Vamos para a próxima.

Arte de capa de Notevoli #1, por Pedro Lucas.

Esse foi bem desafiador, Andrej pensou em um grupo de heróis italianos, e o primeiro deles seria esse da capa, Scarabeo Verde. Pensei “é uma copia do Besouro Azul?” e sabe o que é mais engraçado nessa pergunta? Eu definiria isso. Se é uma cópia ou não, o roteiro é quem vai dar a direção, e pensando nisso, eu, mais uma vez, dei meu melhor. Notevoli e todas as histórias que envolvem Scarabeo Verde, estão dentre as minhas favoritas. Abaixo, a sinopse.

Três Vezes Notável Parte 1: Após um encontro inusitado com um escaravelho alienígena, Ercolano adquire super poderes extraordinários: força sobre-humana, visão aprimorada e muito mais. Uma benção ou uma maldição? Conheça a verdadeira história do Scarabeo Verde!

Acredite, nada nessa história é tão simples quanto parece, esse personagem é extremamente complexo e sua relação com o tal escaravelho alienígena não é lá das mais divertidas. Veja uma das páginas e o seu roteiro.

Página 03 de Notevoli #1, roteiro meu, David Stéfano. Arte de Pedro Lucas e letras de Narciso Rosário.
Roteiro de Notevoli #1. Página 03.

Note o quão sucinto esse roteiro é em relação a arte extravagante de Pedro Lucas, eu tenho orgulho do que escrevo, mas nem de longe consigo visualizar a perfeição do resultado final, claro, nem sempre os resultados da arte me surpreendem, mas essa página em especial, me surpreendeu positivamente. Com poucas palavras eu consegui dizer ao Pedro Lucas, sem mandar mensagem alguma pra ele, o que eu estava imaginando. E ele viu, viu ainda melhor que eu.

Note que a formatação desse roteiro é idêntica a do anterior, essa formatação mudou um pouco ao longo do tempo, hoje em dia é bem parecida ainda, mas já é diferente. A formatação é importante, não retiro dela todo o seu valor, mas o que mais importa ali é o entendimento das cenas na ordem em que estão descritas, se o artista visualiza isso, e consegue extrair o desenho dali, bingo, você venceu.

Vamos para o último.

Arte de Capa de Sol Nascente, por Matheus Freitas.

Sol Nascente foi aquele tipo de desafio que eu achei que não conseguiria vencer, mesmo com a experiência e o conhecimento que eu tinha, eu pensei várias vezes: “acho que eu exagerei…”, por que era uma história longa, uma graphic novel diante das outras histórias de 10-15 páginas. E histórias longas precisam não só de coerência, elas precisam ser interessantes o tempo todo, por que abandonar é sempre mais fácil que continuar, você sabe disso.

Tenho orgulho do resultado final, sempre quis fazer algo mais próximo do estilo japonês, e fazer isso com um super herói tão interessante, foi incrível. Obrigado, Andrej. Abaixo a sinopse.

Quando Brilha a Estrela do Leste: Após vivenciar os primeiros anos de sua vida como qualquer garoto normal do interior do Japão, Michinori testemunha uma virada surpreendente quando um acidente espacial traz um alienígena diretamente para sua casa. Contudo, essa é apenas a ponta do iceberg em uma narrativa que levará esse jovem da Terra a um universo repleto de possibilidades, transformando-o no principal super-herói do Japão. Conheça Michinori e seus companheiros nessa história dividida em três capítulos que estabelece um grupo de super-heróis japoneses jamais visto.

Agora vamos analisar uma página dessa história e seu roteiro, rapidamente, antes que você abandone essa newsletter que já está ficando mais longa do que eu previa.

Página 02 de Sol Nascente, roteiro meu, David Stéfano. Arte de Matheus Freitas.
Roteiro de Sol Nascente. Página 02.

E aqui estamos. Esse roteiro é bem interessante, pois tive que trabalhar com vários aspectos novos pra mim, desde a utilização de um cenário completamente novo, até o crescimento de um personagem, de sua infância até o seu momento mais heroico. É complicado contar uma história simples de forma interessante, assim como é complicado contar uma história interessante em poucas páginas, esse roteiro em especial possui mais de 50 páginas.

Bom estudo a você que está se preparando para ser um roteirista de quadrinhos, e claro, se precisar de mim, sabe onde me encontrar.

Agora vamos falar sobre como você pode adquirir esses quadrinhos maravilhosos e apoiar o cenário nacional, e eu te digo, não é um cenário lindo e maravilhoso, pelo menos ainda não. Estamos lutando pelo nosso espaço, querendo ou não, ainda somos reféns de uma cultura que não é nossa, e nem falo de heróis americanos, falo da forma americana (ou europeia) de se contar histórias, seja lá sobre o que elas são.

Nós temos potencial, potencial de criar o nosso caminho, nossa forma de contar, de criar, de apresentar ao mundo heróis nacionais e estrangeiros, que são criações nossas. Não precisamos baixar a cabeça e aceitar tudo o que nos é entregue, calados. Para isso, precisamos apoiar o que vêm de dentro.

UICLAP e Catarse

Andrej decidiu, após uma grande decepção com uma editora (longa história que já resumi em alguma newsletter) que deveríamos lançar as HQs por nossa conta, nesse caso, por conta dele. E então surgiram duas ideias, a primeira foi o Catarse, pedir apoio para leitores de quadrinhos é bem complicado. Se você não tem um público, várias redes sociais e uma renda para investir em marketing, você é apenas mais uma pedrinha naquele lago enorme de criadores.

O Catarse da Terra Valente (nosso universo de heróis) está aberto, e você pode apoiar por lá, receber suas recompensas e brindes em casa, e ser feliz. O link está aqui.

Mas, além dessa ideia maravilhosa que foi o Catarse, tivemos mais uma ideia, a de colocar a venda via UICLAP, uma venda direta entre a plataforma que atua como uma gráfica, e o leitor, você, que tem interesse em edições caprichadas desses quadrinhos maravilhosos. Aqui, no UICLAP, eu recomendo que você adquira as edições do autor, estão indicadas com esse nome nos títulos, e lá você encontra não só as revistas que citei aqui, mas muito mais.

As edições do autor são edições de formato maior e com mais qualidade, o preço vale a pena, é o mínimo para que tenhamos o mínimo de lucro, e sabemos que não será lucro, apenas faturamento, pois os gastos foram absurdos para termos em mãos um sonho realizado. O link para compra no UICLAP está aqui.

É isso, pessoal, tentei ser o mais breve e sucinto possível nesse conteúdo, pois, como sabem, meu objetivo aqui é sempre entregar um conteúdo de valor, não quero que leiam e saiam daqui apenas com uma “propaganda” de algo que criei, quero que tirem desse texto algum aprendizado, quero que depois de ler isso aqui vocês pensem “eu também posso escrever quadrinhos”, por que, advinha só, você também pode.

A jornada nunca é fácil, por isso é uma jornada. Boa sorte.

Até mais, exploradores!

Publicada originalmente na Prosa & Pixel, no Substack. Ver no Substack · Assinar a Prosa & Pixel · Todas as edições