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Prosa & Pixel1 de novembro de 202411 min de leitura

Memórias de Pixels e Papeis

Histórias que moldaram minha jornada como escritor de jogos e quadrinhos

Creio que essa edição será a mais simples até aqui, uma conversa sincera sobre as influências que me levaram até a escrita. Essas influências, aqui apresentadas, partirão de jogos, quadrinhos e livros, serão memórias compartilhadas, pensamentos que você, leitor, também deve ter, se, ao terminar de ler algo incrível, se pergunta: “e se eu escrevesse algo também?”. Eu já me perguntei isso antes.

Quando criança, eu não tive muitos recursos, os jogos que eu conhecia eram os disponíveis na locadora mais próxima, onde 50 centavos me garantiam 30 minutos de diversão longe do mundo em que eu vivia. Raras foram as vezes em que, por empréstimo de algum amigo ou ao visitar algum colega, eu tive um videogame diante de mim que não era um aparelho de locadora. Ter um videogame só meu era uma ideia bem distante.

Isso não era diferente com livros e quadrinhos. Livros eram mais fáceis de encontrar, eu sempre ia na biblioteca da escola, onde não tinha nada muito interessante, mas de vez em quando eu achava algo legal. Quadrinhos eram uma coisa diferente, eu sempre via nas bancas de revista do centro ou na rodoviária, quando eu passava por lá, mas nunca tinha dinheiro para comprar, achava caro, mas bonito, porém, não me atraia tanto, ainda.

A ausência de recursos força nossa mente a um abismo, você pode se jogar ali, sentir inveja dos que tem, sentir raiva por não ter, fazer coisas erradas para conseguir (e como eu vi isso acontecer…), ou, como eu, você pode criar. Criar as próprias histórias, os próprios livros, quadrinhos e jogos, criar brincadeiras, correr para longe da solidão psicológica, se entregando a arte. A arte salva, mais que isso, ela cura. Isso é inegável.

Eu escolhi criar.

Relembrando os primeiros pixels

Quando eu tinha entre 4-6 anos, não lembro bem que idade era com certeza, meu irmão mais velho me levou pela primeira vez até uma locadora de videogame, ficava a poucos metros de casa, ele me sentou em uma cadeira sem encosto e me impediu de cair várias vezes enquanto, eu, ainda sem entender que a cadeira não tinha encosto, tentava encaixar as costas ali. Ele estava jogando algo que, pelo menos dois anos depois, seria o motivo de algumas brigas em casa, com minha mãe.

Capa do jogo de Super Nintendo Ultimate Mortal Kombat 3

Meu irmão não era bom nesse jogo, ele percebeu algum tempo depois. Nessa época, era tudo o que eu queria, jogar Mortal Kombat com amigos e de vez em quando um Mario, mas o legal mesmo era a luta, os gritos, os brutalites e fatalites. Novo demais, e sem noção, cheguei a pegar 50 centavos escondido da minha mãe para poder jogar isso uma vez. Levei uma surra, daquelas que educa. Mas, sabe o que é mais interessante nessa época? Eu não me importava com a história de nenhum jogo. Eu me importava apenas com uma única coisa, que é, para mim, o motivo real por trás da existência dos jogos: Diversão.

Jogar para se divertir é a base da ideia por trás de “jogar”, e eu percebi isso apenas anos depois. Quando você é criança, você não escolhe se divertir conscientemente, você faz o que faz por que quer, a diversão é uma consequência em comum para tudo aquilo que você quer fazer, e a pergunta que deixo aqui, como reflexão é: Em que momento paramos de agir assim para agir como adultos?

Vou citar “O Nome do Vento” em antecipado, falarei melhor desse livro em outro momento:

“Quando somos crianças, raramente pensamos no futuro. Esta inocência deixa-nos livres para nos divertirmos como poucos adultos conseguirão. O dia em que nos preocupamos com o futuro é também o dia em que deixamos a infância para trás.”

- Patrick Rothfuss

Agora voltando ao assunto principal, jogos, vou te mostrar o primeiro jogo que me despertou a vontade de escrever histórias, o primeiro jogo que concluí e senti uma vontade imensa de abrir um caderno e escrever minhas ideias.

Capa do jogo Chrono Trigger

Esse jogo é sobre tantas coisas que fica difícil de descrever: Amizade, aventura, poder, corrupção, viagem no tempo, realidades paralelas, guerreiros amaldiçoados e vilões carismáticos. É impossível jogar Chrono Trigger e não desejar mais, e para os que desejam e não encontram, só resta criar, e quando você começa a criar, percebe, não é mais daquilo que você quer, é mais de outra coisa… o que seria?

Descobrir a resposta para isso é um dos maiores desafios para um escritor, somos amaldiçoados com uma inquietação que desperta ao encontrarmos boas histórias, uma inquietação que inspira, mas ao mesmo tempo castiga, pois enquanto as histórias que vivem dentro de você não forem expostas ao mundo, você não se sente bem. E claro, isso é mais sobre mim do que sobre você, mas se você se identifica, comenta ai, vamos conversar.

E, apesar de Chrono Trigger me engatilhar em relação a criação de novos mundos e histórias, não foi ele que me deu o “start”, até eu começar, de fato, a escrever para games, eu percorreria um caminho difícil. Diria que esse jogo foi apenas uma pedra no sapato, em um sapato que eu me forçava a calçar, e no momento em que, por causa dessa pedra, eu tirei, senti o quanto eu precisava de um novo sapato.

Vou falar agora de um último jogo, dessa lista de influências que me marcaram entre os anos de 2004 e 2016, esse último, em especial, eu joguei em uma fase bem sombria da vida, e senti que, usando ele como refúgio, eu consegui conversar com várias versões de mim que vi representadas ali. Versões mal resolvidas de um David ou de um Kael, que eu precisava entender, conhecer, ouvir e resolver. Diria que se não fosse por Life is Strange eu jamais teria me afundado na escrita de jogos como eu me afundei, pois ele foi o primeiro jogo que me disse: “ei, olha aqui seu propósito na escrita”.

Capa de Life is Strange, disponível para PC e outras plataformas

Encantar, emocionar, ensinar e cativar, são esses os feitos desse jogo. E isso define propósito, para mim, na escrita, eu quero fazer isso também, mais que isso, eu preciso fazer isso. Eu preciso emocionar, encantar, cativar e ensinar, sinto isso profundamente, que, alguém, em algum lugar, precisa ler algo meu, e que isso vai salvar essa pessoa de alguma forma. E por isso, continuo aqui, escrevendo, seja em um dia bom, seja em um dia ruim,

Para escritores, a inspiração é uma armadilha, não espere por ela, encontre-a.

A leitura de livros e quadrinhos

Pensei várias vezes em como chegar nesse assunto sem parecer chato, pensei se deveria falar de quadrinhos primeiro e livros depois, mas de fato, não posso distanciar esses dois ao longo da minha própria história. Eu comecei a ler livros primeiro, alguns amigos emprestavam, ou, em casos raros, encontrei algo interessante na biblioteca da escola.

Livros são como portais, para mim, são através deles que eu, de olhos abertos e atentos, saio daqui e vou para outro lugar, onde ninguém consegue me perturbar e principalmente, onde meus pensamentos se aquietam, onde o foco não sou eu, e eu não sou o protagonista. Livros me salvaram mais vezes que jogos, mais vezes que quadrinhos, e mais vezes que pessoas, são para mim, bens tão preciosos que quando tive que vender alguns, por conta de mudanças, fiquei extremamente triste, mas isso é outra história… mudanças…

Aqui, eu poderia falar sobre vários livros, desde minha jornada com Percy Jackson e os Olimpianos, até O Caminho dos Reis, poderia falar do Fim da Infância ou da Fundação, mas hoje, escolhi falar apenas de uma única série de livros, uma que me marcou tão profundamente que me fez voltar a escrever depois de ter desistido. As Crônicas do Matador do Rei: O Nome do Vento e O Temor do Sábio.

Completa arte de capa de O Nome do Vento

Vamos começar com mais uma frase desse livro:

“É como se todo mundo contasse uma história sobre si mesmo dentro da própria cabeça. Sempre. O tempo todo. Essa história faz o sujeito ser quem é. Nós nos construímos a partir desta história.”

- Patrick Rothfuss

Quando um amigo me indicou esse livro, eu demorei a ler, demorei pois estava desacreditado dos livros, quase entregue a uma depressão e beirando o abismo daquele que precisa criar e não cria. Eu havia desistido da escrita e, mesmo com uma pedra no sapato, ainda o calçava e andava com ele, andava apressado, para chegar a lugar nenhum.

Quando finalmente decidi ler O Nome do Vento, eu me deitei, antes de dormir, e pensei: “Talvez, só talvez, esse livro me faça voltar a ter boas ideias”. Naquela noite eu não dormi. Aqui, não quero apenas rasgar elogios ao livro, a sua narrativa envolvente e a tudo o que ele ensina entre uma fantasia e outra, mas dizer que, se não fosse por esse livro, eu não teria essa Newsletter e muito menos viveria da escrita. Livros salvam, e salvam muito, constroem personalidades, definem pensamentos, ensinam sobre a vida, mas lembre-se, saber escolher o que é bom é tão difícil quanto resolver equações sem saber o que são funções.

O Nome do Vento é sobre crescer, sobre ser criança e passar por terrores impossíveis, é caminhar junto de Kvothe, o protagonista, e torcer para que o dia dele seja bom, mesmo que o seu não tenha sido, e se sentir bem quando ele consegue um bom local para dormir, uma nova moeda para comprar comida, ou aprende algo novo que vai lhe ajudar na jornada. E que jornada seria essa? Bem, a jornada de Kvothe é leve e pesada nas medidas certas, é sombria e assustadora em alguns momentos, mas é, acima de tudo, inspiradora, pois Kvothe não é apenas um protagonista qualquer, ele é mais humano que muitas pessoas reais que já conheci de perto.

“Portanto, sim, ele tinha suas falhas, mas que importância tem isso, quando se trata de questões do coração? Amamos aquilo que amamos. A razão não entra nisso. Sob muitos aspectos, o amor insensato é o mais verdadeiro. Qualquer um pode amar uma coisa por causa de. É tão fácil quanto pôr um vintém no bolso. Mas amar algo apesar de, conhecer suas falhas e amá-las também, isso é raro, puro e perfeito.”

- Patrick Rothfuss

Capa completa de O Temor do Sábio

Agora, quando se trata de quadrinhos, nossa, não sei nem como começar a falar sobre aquilo que foi, até hoje, a minha maior fonte de renda. Engraçado lembrar, eu não lia quadrinhos, não gostava da estética, mangás eram mais legais. Então, em 2011 Eu conheci alguém que colecionava quadrinhos, ele fazia isso onde era quase impossível achar quadrinhos, e ele tinha tantos… Ele me emprestou alguns, dizendo “aposto que tu vai gostar do Homem-Aranha”. Ele estava certo.

Super-heróis me fascinam por outro motivo, um motivo diferente dos jogos e livros. Enquanto nos jogos sou eu jogando, sou eu que protagonizo, mato monstros, faço escolhas, volto no tempo, realizo feitos, nos livros não era eu, era um protagonista diferente, era alguém que eu estava conhecendo e entendendo. Nos quadrinhos essa perspectiva se assemelhava a dos livros, mas com um diferencial que sempre me cativou, heróis poderiam não ser heróis.

Ter poderes é algo absurdo, ter poderes e usar eles para o bem é algo mais absurdo ainda. Já afirmei a alguns amigos, caso eu tivesse poderes… oh, Deus, não faça isso… Eu definitivamente não seria o herói dessa história. Heróis, pessoas que escolhem fazer o bem por que sim, e seres que preferem construir do que destruir, isso me cativa, mais que isso, entender que, por trás de uma máscara, de um uniforme estilizado ou de músculos exagerados, existe humanidade, mesmo quando não são humanos.

Existe uma única história de quadrinhos que me moveu até a escrita de quadrinhos, e me guiou até outras muitas. Eu poderia falar dos dilemas da Era de Ultron da Marvel, ou de todas as percas da Guerra Civil entre Capitão América e Homem de Ferro, mas vocês já viram isso no cinema. Eu também poderia falar da Piada Mortal, e do quanto o Coringa estava certo ao tentar provar que basta um dia ruim para tornar um homem são em um homem louco, mas vocês também já viram isso, apesar de que foi de outra forma. Melhor que isso, eu poderia falar sobre como qualquer um de nós faria pior do que o que o Flash fez em Flashpoint, nós não só salvaríamos a nossa mãe ao voltar no tempo, nós faríamos mais, você sabe…

Mas, hoje, vou falar de Crise de Identidade. Hoje eu vou falar do quanto os heróis podem ser frágeis se você souber para onde olhar, foi isso que esse quadrinho fez.

Capa de Crise de Identidade #6

Até onde um herói pode ir para defender sua identidade, para defender seus entes queridos? Até onde é moral e justo fazer algo pelo “bem maior”? Essas questões, levantadas nessa HQ, levantam mais questões e pensamentos que te fazem mudar a forma como você vê esses personagens. As falhas, os erros, aquelas imperfeições que não cabem nas figuras heroicas da DC, elas estão expostas aqui. E é disso que eu gosto, da realidade por trás da fantasia, do medo que os superpoderosos sentem de si mesmo, ao perceber, com dificuldade, que o maior perigo para os heróis são eles mesmos.

Quadrinho é sobre fazer o leitor se sentir em movimento mesmo que ele tenha apenas 3 quadros e um balão. E se você também pensa em escrever quadrinhos, como um dia eu pensei, e realizei, ai vai um presentinho.

Esse é um e-book escrito por Gian Danton, um roteirista de HQs brasileiro, que me ensinou muito quando eu estava começando, e me deu as bases para seguir em frente quando, em todos os outros lugares, eu só encontrava obstáculos. Essa versão é de distribuição gratuita, pela Virtual Books, com autorização do próprio autor, como é dito nas primeiras páginas. Espero que você, jovem escritor, se inspire e consiga fazer bom uso do material, e qualquer coisa, pode me chamar, estou a disposição!

Por hoje é isso.

Até mais, exploradores!

Publicada originalmente na Prosa & Pixel, no Substack. Ver no Substack · Assinar a Prosa & Pixel · Todas as edições